Darwin em São Gonçalo dos Campos
Aqueles que assistiram “O Pesadelo de Darwin” (Sauper, 2004) vão entender onde eu quero chegar. Para os outros, é o seguinte. A perca do Nilo foi introduzida no Lago Vitória, e se encontra hoje explorada industrialmente. Provavelmente, aquelas que se compram na Europa venham de lá, porque as indústrias as exportam logo por avião. No local, as comunidades de pescadores se tornaram reféns desta exploração.
O tema do documentário vai mais além, como indica o título. Embora reconheça a ação do homem, como no capitulo primeiro da Origem das Especies, a teória evolucionista clássica fala que as espécies as mais adaptadas ao meio são naturalmente selecionadas para se reproduzir mais, e assim evoluir.
Acrescente-se um ponto essencial: a intervenção humana. Claro, é difícil imaginar como um dinosauro, uma bactéria ou um australopitéco, conseguiram intervir em algum ponto da evolução: associamos esta idéia à ciencia moderna, às modificações genéticas e outras biotecnologias.
Esquecemos assim o lado escatológico do problema, em particular em relação ao mundo vegetal. Segundo Jared Diamond, no seu livro Guns, Germs and Steel. The Fates of Human Societies, o processo de domesticação dos principais cereais que comemos hoje, começou nas latrinas. É defecando que permitimos às sementes se reproduzir em um lugar bem definido, permitindo que sejam lentamente adaptadas às nossas necessidades, até semear hectares inteiros. O trigo que comemos não evoluiu sozinho em algum canto para que possamos comê-lo – isso seria um tipo de justificação inconsciente de um mundo em que os humanos seriam incapazes de poluir – ele foi selecionado para caber na hierarquia de dominação do seu maior predador. Além do nível de evolução natural identificado por Darwin, é possível elaborar um outro modelo, em que a lógica de dominação dos recursos naturais provoque também a evolução das especies.
Neste sentido, o Lago Vitória viu seus recursos adaptados à dominação do seu mais novo predador , o consumidor europeu. Em termos depurados, ceteris paribus, isto é chamado entrar na economia globalizada. E longe de là, a região de São Gonçalo dos Campos, na Bahia, vive um processo de adaptação comparável, baseado na avicultura industrial. Tratando-se de uma economia globalizada, é possível ver o que é similar, e o que é diferente, entre as duas situações:
- A produção do Lago Vitória vai para a Europa; em São Gonçalo dos Campos, ela vai para as grandes cidades do sul do Brasil. Em ambos os casos, é o maior mercado – o maior predador – que determina a evolução dos seus dependentes, e não o meio ambiente.
- A perca do Nilo é carnívora, e elimina todos os outros peixes presentes no Lago, tirando tanbém qualquer alternativa de pesca para as comunidades locais. O frango dificilmente é carnívoro, mesmo se acaba sendo canibalo quando ele come rações feita de farinha animal. Aqui, é a ordem agrária – latifundiária – que impede as comunidades locais de desenvolver alternativas.
- A industria recupera esta mão-de-obra local. Ela está ocupada, ou na extração da materia-prima (pescar os peixes no lago), ou na sua transformação (limpar e congelar o frango).
- O meio em que vivem estas comunidades é reorganizado para coresponder às exigências do maior predador. “O Pesadelo de Darwin” mostra aldéias de pescadores decimadas pelo AIDS e crianças vivendo nas ruas, ao lado do aeroporto. No Brasil, os bairros periféricos, povoados por trabalhadores, na maior parte do tempo não têm urbanização, e São Gonçalo dos Campos não faz exceção, mesmo com o seu tamanho reduzido. Granjas de 20,000 galinhas, cada uma mais povoada que a própria cidade, estão plantadas em todo o território.
Os peixes do Lago Vitória viajam perto de 6000 kilômetros antes de alcançar os consumidores, enquanto quase todo o frango percorre apenas 1000 ou 2000: mesmo com dimensões sub-continentais, o Brasil é um país só. Em consequência, a legislação é a mesma para os consumidores do sul e para os trabalhadores do nordeste: beneficiam da mesma cobertura social embrionaria e do mesmo sistema único de saúde. Ao inverso, nenhuma legislação européia pode atingir os pescadores africanos (nem era o caso no tempo das colonias), a não ser os esforços do comercio justo e da agricultura orgânica. Também não há trafico de armas em São Gonçalo dos Campos. Porém, estas diferenças não mudam a relação a dependência na qual se encontram tanto o lago africano quanto o canto do Recôncavo baiano.
Seja ela nacional ou não, a opção do “tudo-para-a-exportação” reconfigura o espaço local e a sociedade que mora nele, de um único jeito: o do refém. As alternativas são eliminadas, e a industria constitue a única forma de futuro possível. O pesadelo de Darwin está bem alí: o maior predador provoca também a evolução dos seres vivos. Resta saber para onde.

