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O início de uma multidão

Vaticano distorce palavras de Betty Friedan para enaltecer lavadora de roupas

O Osservatore Romano (o jornal oficial do Vaticano) publicou, em “homenagem” ao Dia Internacional da Mulher, uma análise do quanto a a máquina de lavar roupas foi o item mais importante da emancipação feminina.

Trata-se de uma grande mentira. Quem pode pagar sempre transfere o interminável serviço doméstico para alguém que faça o trabalho profissionalmente. No caso da lavagem de roupas, tem-se a profissão de lavadeira. A julgar pelo raciocínio da emancipação pela lavadora de roupas, a mulher que já pagava lavadeira e cozinheira era emancipada e não sabia… só faltava ter direito a voto, a herança, a trabalhar sem precisar de autorização do marido, a ir pra escola e pra faculdade, a exercer profissão, a ter direitos trabalhistas, a andar sozinha na rua com segurança… Ou seja, esse argumento não tem fundamento.

Não li o artigo original publicado por Giulia Galeotti no Osservatore Romano, mas pelo que pode ser entendido do que foi divulgado, com certeza o artigo distorce palavras da Betty Friedan, especialmente quando fala das maravilhas de se trocar os lençóis duas vezes por semana ao invés de uma. Não há uma palavra dela que endosse tais “maravilhas”, muito pelo contrário: Betty Friedan é uma crítica implacável dos eletrodomésticos, descrevendo-os como algo que forçaram a mulher a se dedicar mais aos afazeres domésticos.

Como a última edição da “Mística Feminina” foi publicada em 1971, poucas pessoas têm acesso ao livro e não poderão identificar os erros do artigo publicado pelo Osservatore Romano. Transcrevo, então, os trechos mais significativos do livro no que se refere a eletrodomésticos.

Na introdução, ao explicar o desânimo e a frustração que acometiam as mulheres de classe média que vivam apenas para os cuidados com a família, Betty Friedan descreveu a vida durante o pós Segunda Guerra:

Nos quinze anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, esta mística de realização feminina tornou-se o centro querido e intocável da cultura americana contemporânea. Milhões de mulheres moldavam sua vida à imagem daquelas bonitas fotos de esposa suburbana beijando o marido diante do janelão da casa, descarregando um carro cheio de crianças no pátio da escola e sorrindo ao passar o novo espalhador de cera no chão de uma cozinha impecável. Faziam pão em casa, costuravam a roupa da família inteira e mantinham a máquina de lavar e secar em constante funcionamento. Mudavam os lençóis duas vezes por semana, em lugar de uma só, faziam cursos de tapeçaria e lamentavam suas pobres mães frustradas, que haviam sonhado seguir uma carreira. Seu sonho único era ser esposa e mãe perfeita. Sua mais alta ambição, ter cinco filhos e uma bonita casa. Sua única luta, conquistar e prender o marido. Não pensavam nos problemas do mundo para além das paredes do lar e, felizes em seu papel de mulher, desejavam que os homens tomassem as decisões mais importantes, e escreviam, orgulhosas, na ficha do recenseamento: «Ocupação: dona de casa».
Fonte: FRIEDAN, Betty. Mística Feminina. Petrópolis: Vozes, 1971. p. 18

E, no decorrer do livro, Betty Friedan criticou diversos aspectos criados por essa situação, desde a indigência intelectual, a dependência financeira até o problema sem nome, caracterizado pelo vazio da vida dessas mulheres, focada apenas no trabalho doméstico. Parecia que os eletrodomésticos facilitavam a vida, mas na verdade, aumentavam o trabalho a ser feito:

Cada avanço científico que poderia ter libertado a mulher do trabalho de cozinhar, lavar, passar, proporcionando-lhe tempo para outras atividades, passou a impor-lhe maiores esforços, fazendo com que as tarefas domésticas não só preenchessem o tempo disponível, como nem sequer pudessem ser realizadas no decorrer do dia.
O secador de roupa automático não poupa as quatro ou cinco horas por semana que ela passava pendurando roupas se, por exemplo, resolver ligá-lo diariamente. Afinal, ainda é preciso carregar e descarregar a máquina, separar as peças, guardá-las. É como dizia uma jovem mãe:
— “Agora podemos ter lençóis limpos duas vezes por semana. Há dias, quando o secador enguiçou, a roupa de cama teve que durar mais tempo. Todo mundo se queixou. Todos nos sentimos sujos. Eu fiquei com remorsos. Não é um absurdo?”
A moderna dona de casa americana gasta muito mais tempo lavando, secando e passando do que sua mãe costumava gastar. Caso possua um congelador e um liquidificador, passa mais horas na cozinha do que a que não possui utensílios que economizem trabalho. O congelador, pelo simples fato de existir, ocupa tempo: ervilhas cultivadas no quintal precisam ser preparadas para congelamento. É necessário usar o liquidificador, aventurando-se naquelas receitas complicadas, com purée de amêndoas e nozes, que levam mais tempo no preparo que costeletas de carneiro.

Fonte: FRIEDAN, Betty. Mística Feminina. Petrópolis: Vozes, 1971. p. 208

Portanto, quem disse que Betty Friedan estava louvando os eletrodomésticos não entendeu o que leu. E, ao divulgar isso, ou estava de má-fé ou estava fazendo piada de mau gosto. De toda forma, estava querendo esconder algo que não se pode negar: o movimento de emancipação feminina foi o resultado direto da extrema opressão sofrida pela mulheres, e o Vaticano foi um dos responsáveis por toda essa opressão.

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2 comentários para “Vaticano distorce palavras de Betty Friedan para enaltecer lavadora de roupas”

  1.   Tica disse:

    Boa Cynthia!

  2.   Artemis disse:

    Ótima, desmistificar a mística misógina do Vaticano… Desculpe a redundância e o trocadilho.

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