Vivo ou morto?
Deve ter sido a primeira vez na história do mundo mundial. O website pessoal de um físico saiu do ar porque não suportou o número de visitas. Isso mesmo, em vez de site pornô ou vídeos bobos, no dia 20 de abril os internautas de todo o mundo queriam mesmo é entrar em www.hawking.org.uk. Talvez pelo menos os blogs e sites de notícias. O motivo, é claro, não tem nada a ver com ciência ou qualquer interesse humano pelos buracos negros, o grande objeto de estudo do dono da página, Stephen Hawking. Queriam descobrir se o gênio que fala pelo computador porque tem o corpo todo deformado e paralisado já tinha batido as botas.
Como todo cientista dedicado e apaixonado pelo que faz, Hawking tem lá suas divergências entre fé e fatos. Nunca chegou a entrar em atritos tão sérios com a igreja quanto um de seus inspiradores, Galileu. Mas pesquisa a origem do universo há quase 50 anos. Quem tem algum conhecimento sobre o tema, conhece o nome porque ele produziu estudos relevantes. Quem ainda se surpreende ao ver a lua no céu quando ainda é dia, sabe que o nome se refere àquele tipo bizarro na cadeira de rodas. Adivinha em qual das duas categorias se encaixa a mídia?
Apesar de ser um homem científico, Hawking tem o seu lado milagroso que atrai as mentes acostumadas com o entretenimento e, portanto, vende jornais. Quando tinha 21 anos, o físico britânico havia acabado de se transferir de Oxford para Cambridge para pesquisar a relatividade e o cosmos e estava prestes a se casar. De repente, começou a cair sem motivo, até que, depois de vários exames, descobriram que ele sofria de uma esclerose lateral amiotrófica. Colocaram-no numa cadeira de rodas e previram que ele não chegaria aos 25 anos.
Em 8 de janeiro de 2009, ele fez 67. Já está no segundo casamento, tem três filhos e é avô. A longevidade de Stephen Hawking é um desafio para a ciência.
Dizem que o que o salva é o intelecto altamente desenvolvido. Há mais de 20 anos ele perdeu a voz, e passou a se comunicar através de um sintetizador. Hoje, para escrever ou falar, ele move alguns músculos abaixo dos olhos, e um sistema instalado em seus óculos traduz esses movimentos em frases, a uma velocidade de duas palavras por minuto. Precisa ter muita destreza para não se render ao silêncio.
Pois em silêncio seguem tanto o serviço de imprensa da Cambridge University quanto a página oficial de Hawking (que três dias depois foi restaurada) desde o fim de abril. A última noticia é de que ele segue em recuperação, cancelou uma viagem que faria no verão do Hemisfério Norte ao Canadá, mas ainda mantém os planos de visitar Genebra no fim de 2009. Não está claro se ele ainda está internado ou segue tratamento em casa, e não é só porque o último anúncio não especifica.
Temo que a notícia de que ele saíra do hospital não interessaria tanto como a da internação. Pior ainda é ter a certeza de que, no dia em que ele infelizmente vier a falecer –o que, ao que indicam os fatos, contrariando qualquer teoria, pode demorar e muito–, saberemos todos na mesma hora. Até porque todos os jornais que ainda não tinham preparado o obituário dele antes deste susto já estão prontos para apertar o botão “publicar”.
Hawking parece se contentar com o reconhecimento genuíno que lhe oferece a comunidade científica mundial, para quem é uma honra contar com seu apoio e oxalá sua presença nos eventos que promovem. Seria bom, porém, que o resto de nós lhe desse o respeito que merece, nem tanto pelo que produziu, mas apenas por ser quem é: um ser humano, como o resto de nós.


É q a população (mundial) só quer saber de desgraça mesmo. A mídia cria na mente das pessoas uma idéia de freak show e a gente se contenta em assistir programas na TV sobre pessoas que tiveram fraturas expostas e como os médicos o tratarão, ou como é o cotidiano de uma clínica de reabilitação de drogas, procurando saber que dia vai morrer e não que dia sairá.
Parece um gol a morte de alguém e uma bola chutada bem longe a consagração de se viver “bem” (em aspas pela concepção de bem e mal).
A gente nem se dá conta, mas só pensa em como será a vida depois da morte do silvio santos ou da xuxa.
Ni!
Hm… o Hawking não é apenas um grande cientista numa cadeira de rodas… os livros dele são best-seller em todo o planeta, foi elevado a status de ícone cultural por vários artistas, além de ter a história de vida com a doença.
Nesse contexto não me espanta nem me parece errado as pessoas se preocuparem e se comoverem com o estado de saúde dele; buscar informações é apenas a forma instintiva de demonstrar esse afeto incomunicado.
Quanto ao enfoque da mídia, a lembrança da nossa efemeridade nos desperta impulsos emotivos… se a morte despertasse interesse pela ciência não haveria religião no mundo que se sustentasse.
A mídia refletir isso não é grave… há que criticá-la pelas descobertas científicas apresentadas como show de variedades, pela falta de cobertura investigativa sobre política científica, mas neste caso, da saúde de uma pessoa reconhecida mundialmente, presta algum serviço o apelo emocional.
Bem, seilá, é um ponto de vista..
Outra coisa interessante, já que estamos no assunto:
O segundo caso mais famoso de ALS, curiosamente, é de outro monstruoso talento: Jason Becker.
Um garoto que ainda adolescente era laureado como referência da guitarra elétrica, gravando discos instrumentais e substituindo Steve Vai na banda de David Lee Roth… descobriu-se vítima dessa doença em idade semelhante à que Hawking.
O mais impressionante é que, assim como Hawking, ele continua compondo peças e lançando discos, usando um sistema de comunicação baseado no movimento dos olhos para expressar e agraciar-nos com suas brilhantes perspectivas musicais.
http://en.wikipedia.org/wiki/Jason_Becker
=)
~~
Oi Quã, desculpe o atraso para responder =)
Achei legal a história do Jason, admito que nunca tinha escutado falar nele. E só reforça a minha pouco científica impressão de que, quando uma doença ataca seu corpo de uma maneira tão feroz, apenas uma mente muito poderosa pode fazer esse dobro esforço de sobrevivência ativa.
O Hawking é tido como o substituto do Einstein como físico mais célebre do mundo. O último livro dele, aliás, foi escrito em parecia com a sua filha e é voltado ao público infanto-juvenil. Acho que ele não se aproveita do interesse que seu estado curioso de saúde suscita nas pessoas para ganhar dinheiro, mas sim para disseminar o gosto pela ciência.
Dito isso, tenho só alguns pontos que discordar contigo…
1) A morte sim desperta o interesse da ciência, não entendi o que você quis dizer. Tentar entender (e eventualmente vencer) a morte é o combustível dos maiores (para não dizer todos) avanços científicos. A religião sobrevive porque as pessoas têm medo é do vai acontecer com elas depois de morrer.
2) Todos conhecem Stephen Hawking, mas quem conhece o trabalho científico dele? Quantos saberiam que o tema principal de estudo dele é o buraco negro, e não as nozes? Quantos por aí imaginam que ele tenha ganho o Nobel? Ou se perguntam a razão pela qual ele nunca ganhou o Nobel? Não critico a sociedade por não ser “culta”, mas se têm interesse pelo CONTEÚDO, e não apenas pelo FORMATO, pelo menos agora que ele está doente, alguém poderia ter tido a iniciativa de ler mais sobre o trabalho dele, por exemplo.
3) A mídia reflete sim a sociedade. Mas, como formadora de opinião, ela nunca deve apenas servir de termômetro da sociedade. É o caminho mais fácil e mais cômodo para ela continuar manipulando a sociedade. Essa é a crítica que eu faço.
=)
Sem atraso, eu só voltei pra ver hj msm…
1) A existência da morte desperta muito interesse científico. Mas isso é diferente do momento em que alguém morre.
2) No momento de uma notícia sobre a morte acho válido levar para o lado afetivo. Não acho que as pessoas vão naturalmente ir de um falecimento para estudar buracos negros. Mas formado um vínculo, depois podem acabar indo atrás.
3) Concordo, e a mídia errou muito ao longo da vida dele, focando demais no indivíduo e esquecendo-se da mensagem. Só penso que o momento da morte, diferente dos outros, é propenso ao individual.
~~