Trezentos

O início de uma multidão

Twitter Training (uma carta aberta à Xuxa)

Querida Xuxa,

Eu nasci em 1982, então faça as contas para ter a certeza de que sim, eu já tive um microfone de chuquinhas, sabia de cor a coreografia das músicas de Super Xuxa contra o baixo astral, cantava “meu verde, que te quero, pro mundo virar mais criança” imitando o sotaque carioca e meu sonho era me enterrar em uma montanha de cartas na minha “casa” no Jardim Botânico. (Demorei demais para me tocar que Jardim Botânico era só o bairro onde ficava o seu estúdio…)

Em nome dos nossos velhos tempos, resolvi te dar duas dicas sobre o que eu aprendi depois de uns 20 meses de Twitter:

1- A grosseria é a regra, e não a exceção.
Construímos no Twitter brasileiro uma comunidade que aproveita a desculpa dos 140 caracteres para deixar de lado a educação. Como não cabe tudo em uma mensagem, preferimos usar o espaço com conteúdo que expressa apenas o nosso lado negativo. Nos acostumamos apenas a falar mal dos outros (busque por #vergonhaalheia ou “Preguiça de gente que…”), como se nós fôssemos perfeitos, nunca cometêssemos erros no trabalho ou alguma mancada com algum amigo. Adoramos diminuir nosso país em relação ao resto mundo (#braziu) como se fôssemos bons demais para ele, e de maneira nenhuma tivéssemos qualquer responsabilidade pelo seu estado atual e futuro. Só rimos de nós mesmos (#faiô) quando é uma situação tragicômica ou um deslize menor, sem importância, que mostra o quanto somos perfeitamente humanos.

Portanto, não estranhe que as pessoas esperem da sua filha um rigor gramático infalível que eles mesmos não possuem. O melhor é se acostumar a isso, e entender que elas só estão praticando o cômodo hábito de seguir o rebanho e engrossar o caldo da intolerância como forma de distração até a próxima passeata de ovelhas. É difícil quebrar a rotina.

2- A culpa é um pouco tua.
Quando eu digo tua, não é especificamente tua, mas sim do sistema midiático, do qual você se beneficia, criado em torno das celebridades que faz com que os “reles mortais” criem um complexo de inferioridade. Que, pelo teor das mensagens que você tem recebido no Twitter, está profundamente enraizado na personalidade de todos nós, que nunca brincamos em uma montanha de cartas, a não ser que elas fossem de mentira, nem marcamos a infância de milhões de pessoas em todo o mundo, ou aparecemos perfeitas em fotos de revistas, nem damos autógrafos diariamente e, ainda menos, tivemos programas infantis simultâneos em vários continentes.

Nós, que deixamos de te idolatrar depois da infância, podemos seguir dois caminhos: sentir compaixão pela maneira tão tipicamente terrível como você foi recebido no Twitter, ou ajudar a fortalecer ainda mais a fama de tratores sem freio que aperfeiçoamos diariamente atrás do monitor. Quase todos seguem o segundo caminho porque é a nossa única oportunidade de nos sentirmos melhores que você. Tenho certeza que você entende como é se sentir mais amada e bem sucedida que os outros. Essa foi a nossa vez.

A tecnologia permite que agora a gente possa fazer mais barulho do que a mera presença em uma montanha de cartinhas. Nossas mensagens não estão mais destinadas ao papel coadjuvante de voar entre seus cabelos e quem sabe raspar nos seus dedos antes de cair no esquecimento. Muito menos a vergonha de ser enterrada lá embaixo e nunca mais ver a luz do dia. Uma piadinha sagaz pode percorrer todo o país em questão de minutos. E o “seu jeitinho” já virou um clássico, é irreversível, achei legal você dizer que não vai processar ninguém porque o sistema judicial e a tecnologia são atualmente incompatíveis.

A melhor maneira de sair dessa é aprender a não se deixar afetar por essa raiva que chega tão mais perto do que a interação com o público à qual você estava acostumada. E, se você me permite essa liberdade, eu diria que a sua filha, se não a quiser preservar de tudo isso, precisa de um treinamento intenso, com especialistas de verdade, para aprender não só a usar essas ferramentas, mas também quais são as suas conseqüências. E, aproveitando essa carta sobre o passado para pensar no futuro, eu te peço que por favor explique à sua filha que, quando ela começar a namorar e o fulano sugerir fazer umas fotos ou vídeos mais “adultos”, que ele nunca mostraria pra ninguém, ela tem que imediatamente chutar o cara de casa. Mostre esse caso e esse outro, mais antigo, pra ela entender que NUNCA esse material permanecerá em segredo. Bom, são só alguns exemplos mais ou menos recentes…

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12 comentários para “Twitter Training (uma carta aberta à Xuxa)”

  1. Maria da Graça é “fudida”, falando português direito ou não. Minha sincera opinião. Diria que ultimamente o Trezentos vem perdendo seu foco, deixa que passa.

  2. Ai, desculpa, prometo que não faço de novo.

  3.   Marcelo Salgado disse:

    Foco..? E qual o “foco”, a “linha editorial”..?

    Pra mim, essa carta tem a ver, sim, com a proposta de contestar, refletir a respeito e provocar reflexões sobre Indústria Cultural e sobre “a idéia de que a vida não se limita as relações de mercado capitalistas”.

    Então, se é necessário haver um foco, acho que está dentro da “proposta”. E até de maneira interessante, criativa – e nostálgica pra quem viveu essa época como criança, sobretudo.

  4.   Marcelo Salgado disse:

    Copiei e colei o texto da apresentação do “Trezentos” e agora notei que há um erro nele – falta uma crase. “… não se limita ÀS relações de mercado…”. Alguém que puder, corrija depois, por favor.

  5.   Roney Belhassof disse:

    Gostaria de poder dizer que você está errada a respeito do caráter grosseiro dos tuiteiros, mas não sei bem como fazer um estudo estatístico sobre o comportamento comum no Twitter. Só posso dizer que as pessoas que sigo são praticamente todas bem educadas e, quando reclamam de #fails normalmente estão falando de empresas ou celebridades que teriam um destaque não merecido em vista da sua falta de tato com a pessoa comum.

    Já o caso da crise de auto-estima nacional é um fenômeno que me parece vir do mundo offline e que sempre tenho a impressão que é alimentado por gente que tem interesse em que não tenhamos esperanças, mas é apenas uma impressão minha.

    Quanto à Xuxa e o anjinho dela não sei quase nada então não vou comentar ;-)

  6.   Vanessa disse:

    Muito bom o teu texto Ana Carolina.
    É muito triste o que a mídia impõe aos brasileiros, coisas fora de nosso alcance! Sou de 1985 e por muitas vezes não ganhei a sandalinha da Xuxa, mas meus pais me ensinaram desde pequena que eu nunca teria com facilidade tudo o que desejo. As pessoas precisam entender que todos nós somos diferentes e que jamais devemos projetar a nossa vida em função de outras pessoas. Isso aqui não é auto-ajuda, mas a felicidade está em pequenas coisas e não na beleza exterior ou na grana! Fico muito puta com a manipulação que essa chamada “grande mídia” faz. Espero que algumas coisas mudem após a conferência nacional de comunicação em dezembro. Não agüento mais essa baixaria toda!

  7.   Miguel Said Vieira disse:

    Não acho que fugiu do “foco” do blog, mas também não concordei muito não. Quem fala o que quer, ouve o que não quer; como já disseram, na TV não era bem assim (não dava pra ouvir as pessoas do outro lado), mas na internet frequentemente é. Fiquei com a sensação de que a Xuxa não tinha muita ideia disso; sensação reforçada quando ela voltou, dando mostras de que realmente não entende como a internet funciona, a dizer que não vai “processar o Twitter”. (E por que ela processaria o Twitter — alguém me explica?)

    E sobre a educação que você lamenta não ter havido na recepção à Xuxa, creio que ela — Xuxa — também não se esforçou muito para cultivá-la. Seu programa infantil era de uma banalidade absurda, e “deseducou” um bocado a minha e a sua geração — que cresceu achando que era bem normal aquele pelotão de loiras de minissaias sendo tratadas como rainhas. Desculpe, mas isso nunca foi lá muito educativo. É claro, isso não é culpa só da Xuxa enquanto pessoa; mas ao fazer parte desse circo da indústria cultural, é difícil separar as duas coisas: o personagem e a pessoa Xuxa; separação que ela mesma não fazia no Twitter, pelo que vi.

    A parte final, com os links para o caso da Vanessa Hudgens e da Paris Hilton, faz bastante sentido, se tomada de uma maneira geral. Mas talvez não para gente tão entranhada na indústria cultural, como essas duas (…e a própria Xuxa); se me permite a desconfiança, não ficaria surpreso se descobrissem que algum dos dois escândalos mencionados fossem, na verdade, estratégias cuidadosamente calculadas pelas assessorias de imprensa — para conseguir mídia, “reposicionar a marca”, passar uma imagem que as venda como sensuais, “atrevidas”. Não que eu concorde com isso — e também não duvido que (a torto e a direito) garotas por aí estejam sendo enganadas por garotos fdps. Mas a Sasha, desde pequena exposta pela mãe, talvez já corra outros riscos bem maiores.

    “A felicidade está em pequenas coisas e não na beleza exterior ou na grana”. Desculpem, mas a Xuxa foi o ícone do contrário disso: a felicidade está em um corpo perfeito, e num “Planeta Xuxa” totalmente alheio à vida real.

  8.   Marcelo Salgado disse:

    Miguel Said Vieira (acima) matou a pau..!

    Realmente, a quantidade e PROFUNDIDADE das distorções particulares/psicológicas; e coletivas/sociológicas que a Xuxa ajudou a nos “proporcionar”…

    E tem razão ainda quando diz que o comportamento dela no Twitter apenas mais claro deixa que Xuxa e Maria são de fato uma só, e que essas “personas” já devem ter se misturado e se perdido dentro dela; e criado um produto híbrido muito… Perturbador há muitos anos.

  9.   Yorik van Havre disse:

    Corrigi o texto de apresentação

  10. Oi Xuxa eu quero muito ser sua baixinha eu já fís umonte de carta e até de 1 messes eu escutava o seus filmes e eu já tenho 6 anos e minha mãe ama vc e que vc escolher eupar ser baixinho seu ai este sonho vai ser realizado para minha mãe tambemXuxa te amo tchau

  11.   cl-a disse:

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  12.   LUKAS disse:

    LINDO O TRABALHO DA XUXA Q DEUS ILUMINE CADA DIIA A VIIDA DA XUXA

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