Trezentos

O início de uma multidão

chamar a atenção X provocar mudança

Antes, dois avisinhos:

1) Só escrevo porque considero demais as pessoas que discordam comigo nesse caso. E para explicar de uma vez por todas, para evitar grosserias e o bom e velho descarrilhamento do debate que só um bom programa de mensagens entrecortadas como o Twitter pode proporcionar.

2) Fiquem à vontade para discordar de mim dos comentários. Mas não esperem resposta. Isso não é um debate, cada um tem a sua opinião e ninguém vai ganhar ou perder no final. Além do mais, eu, que já não tenho paciência para debates nos comentários, também ando sem tempo para ficar supervisando as conseqüências das minhas palavras. Portanto, maneirem no palavriado chulo e nas ofensas.

Eu defendo muitas causas. Obviamente sou a favor de que o Brasil consolide de vez um sistema de saúde primária público, gratuito e universal. De disseminar uma cultura de culto à saúde, e não ao corpo. De aceitar as imperfeições de cada um como naturais e, portanto, perfeitas. E de respeitar o envelhecimento como parte da vida, não como castigo aos que não seguem à risca as regras de permanência debaixo do sol, número mínimo de cremes e cosméticos para lambuzar na cara, braços, celulite e pontas dos cabelos diariamente ou assiduidade na limpeza de pele e na drenagem linfática.

Sei que o tal sistema de saúde não vai chegar enquanto eu estiver viva (e olha que a minha expectativa de vida está no nível da europeia, se levarmos em conta que a brasileira é uma média entre a pequenina elite e o resto do povão). Também entendo que, enquanto ela não chega, precisamos nos esforçar para empurrar o mundo da melhor maneira possível. Por isso, sou totalmente a favor das campanhas de prevenção a todos os tipos de câncer.

Mas, na minha HUMILDE opinião, que não pretendo enfiar goela abaixo de NINGUÉM, uma campanha com fotos de mulheres mostrando os seios não é uma campanha eficaz. E é sim machista.

Veja bem, não acho que o objetivo da fotógrafa que teve essa ideia seja criar uma campanha machista. Entendo perfeitamente o propósito da iniciativa, que seria tirar fotos de muito bom gosto de blogueiras para aumentar a conscientização das mulheres e assim fazer com que elas adotem de vez o auto-exame e o exame médico periódico. Salvaríamos muitas vidas se a campanha tiver o efeito desejado. Mas eu acho que não terá.

Acho isso porque já houveram inúmeras campanhas com mulheres mostrando os seios. Inclusive de mulheres que sofreram uma mastectomia decorrente do câncer de mama.

O desafio da publicidade, e também do jornalismo, é reter a nossa atenção em uma era em que a overdose de informação nos distrai o dia inteiro. É por isso que hoje é cada vez mais difícil praticar o bom jornalismo e a boa publicidade. Nos acomodamos a inventar editorias chamadas “mundo bizarro” para as histórias de homens mordendo cachorros, e a rechear o maior número de páginas possíveis com fotos de mulheres atraentes com pouca roupa. Sem contar o futebol. E as pessoas se acomodam a gastar uns minutos do dia lendo sobre homens que mordem cachorros, mulheres semi-nuas e futebol.

Para fazer as pessoas lerem sobre algo e entenderem que precisam mudar como vêem sua vida, seu futuro, seu corpo e seus seios, precisamos desacomodar as pessoas. E imagem de peito já sequer choca alguém. A diferença é que não será gente famosa, nem semi-famosa, nem mulheres que já perderam os seios. Serão pessoas famosas em um nicho muito específico e restrito de pessoas. Pessoas que já têm acesso à informação e ao sistema necessários para saber de cor e salteado o que a campanha quer ensinar.

Ano passado eu estive no MASP na campanha do Outubro Rosa. Era uma van com perucas e penduricalhos cor-de-rosa e as mulheres poderiam tirar fotos para o site da campanha vestindo os acessórios. Nos deram camisetas e ajudamos a distribuir folhetos e falar com as mulheres. No fim, nos deixaram ir embora com as camisetas, e eu dei a minha para uma mulher muito humilde que também nos ajudou a distribuir folhetos, mas que não ganhou camiseta porque não era blogueira**. Brindes esses que nós, do nicho, ganhamos e esnobamos, vestimos como pijama ou esquecemos no armário até doar para algum bazar no fim do ano. Confesso que não me lembro do seu nome, nem do bairro, mas sei que essa mulher fez muito mais campanha do que eu, justo com as pessoas que mais precisam desse tipo de campanha.

Eu acho difícil fazer campanha. Eu trabalhei no Instituto Sou da Paz durante a campanha pelo desarmamento e depois a campanha do referendo sobre o comércio de armas. Mas eu também sei que o fato de que é difícil exige que as pessoas que realmente querem provocar uma mudança na cultura da nossa sociedade precisam pensar muito mais e elaborar novas maneiras de não só chamar a atenção, mas retê-la também. No caso do Sou da Paz, ele foi criado com uma campanha cheia de famosos, e com muito esforço conseguiu recolher muitas armas. Levou mais vários anos pressionando o governo, junto com outras ONGs, e finalmente conseguiu fazer com que o governo criasse uma campanha onde qualquer pessoa pudesse devolver as armas antigas que estão em casa oferecendo perigo sem ter que responder de onde elas vieram e ainda receber uma indenização. Aí conseguiram criar uma grande rede de prefeituras e igrejas para multiplicar o número de postos de entrega e então recolheram e destruíram mais de meio milhão de armas. Resultado: queda de 70% nos homicídios no Estado de São Paulo entre 1998 e 2008.

No caso do câncer de mama, as fotos e cartazes já estão aí há muito tempo. Podemos aproveitar a interatividade e o suporte audiovisual da Internet para colocar essas blogueiras para fazerem o tal exame e documentá-lo, fazê-las competir para ver quantas pessoas conseguem conscientizar, cada uma em uma região de São Paulo, montar um mapa interativo do Google com os postos de saúde, dividi-las em times para que cumpram desafios. Sei lá, as possibilidades que as TICs nos proporcionam são infinitas, não entendo o motivo pelo qual temos que continuar com a nossa visão simplista do mundo de apelar para a nudez (por mais artística que seja) para chamar a atenção para uma causa.

Citei no Twitter o caso da PETA, que entre outras mil estratégias coloca atrizes famosas para interagir de maneira provocativa com alfaces para instar as pessoas a largar a carne e acaba sacrificando uma causa em defesa de outra. Para mim, se você precisa apelar, então não está se esforçando o suficiente para realmente provocar uma mudança social.

**Não estou criticando o fato de a organização não ter dado camiseta pra ela. A campanha não tem obrigação de distribuir camisetas. Só estou contando o que aconteceu.

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