Trezentos

O início de uma multidão

Transformando a vítima em ré: expulsão de aluna da UNIBAN

A expulsão da aluna de turismo da UNIBAN que foi intimidada, insultada quase estuprada, se não fosse protegida por uns poucos e sensatos amigos e professores ali presentes, só saindo com escolta da PM, em São Bernardo, revela a persistência da dupla moral na sociedade.
Acusa-se Geisy de estar se vestindo de forma provocante e por fim de ser um golpe seu para aparecer já que quer ser modelo, diz o advogado da Universidade em entrevista. Fosse ela uma prostituta assumida, ainda assim deveria ser respeitada em sua integridade e dignidade humana. Nada justifica incitamento ao estupro coletivo.
Uma instituição dita educacional, mas que é um supermercado de ensino prefere expulsá-la enquanto apenas pune e preserva o anonimato de estudantes que incitaram as agressões e assédio moral e sexual de que foi vítima.
É um assunto complexo: Mesmo que a jovem tenha  a intenção de ser modelo ( o que é um direito seu) teríamos que punir antes todos os midia, a publicidade e a propaganda que incidem no imaginário de inúmeras jovens veiculando a mensagem de que seu corpo é uma mercadoria e o único meio de ganhar evidência. Não é a toa que milhares de jovens acorrem aos concursos televisivos de modelo, para não falar dos funks machistas que intitulam de cachorras mulheres sensuais etc Então trata-se de um comportamento induzido ou melhor subjetividade produzida. O melhor caminho é sempre o debate, a possibilidade de reflexão crítica.
Por outro lado, devemos chamar atenção que, no século XXI, uma mulher deveria ter autonomia para dispor do próprio corpo, vestir-se como gosta e não ser importunada por isso.
Recomendo a crônica do psicanalista Contardo Calligaris, (na Folha de São Paulo, de 05/11/09, C. llustrada) intitulada “A turba da UNIBAN”. Diz ele ao final: ” Agora, devo umas desculpas a todas as mulheres que militam no feminismo. Ainda recentemente, pensei (e disse, numa entrevista) que, ao meu ver, o feminismo tinha chegado ao fim de sua tarefa histórica. Em particular, eu acreditava que, depois de 40 anos de luta feminista, ao menos um objetivo tinha sido atingido: o reconhecimento pelos homens de que as mulheres (também) desejam. Pois é, os fatos provam que eu estava errado”.
Quanto à UNIBAN abriu mão de seu papel de educar e organizadamente oferecer aos alunos a possibilidade de refletir sobre esse comportamento perigoso e injusto: repensar as relações de gênero na nossa sociedade. Espero que o MEC, o Conselho Federal de Educação tomem uma providência e deem uma advertênciaà UNIBAN por tentar voltar à Idade Média em termos de direitos humanos das mulheres. Debater os direitos sexuais e reprodutivos está na ordem do dia na principal região metropolitana do país.

Em tempo: A ONG SOF – SempreViva Organização feminista, convocou um ato público para dia 09/11, às 18h, em frente à UNiBAN e está sendo assumido pelo movimento feminista, sindical e estudantil.
A Ministra Nilcea Freire, da Secretaria de Política para as Mulheres, confirmou presença.
A Uniban fica na Avenida Rudge Ramos, 1501 S. Bernardo

Consultar homepage da SOF: www.sof.org.br

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6 comentários para “Transformando a vítima em ré: expulsão de aluna da UNIBAN”

  1.   Tica disse:

    O ato será na segunda-feira, dia 9, as 18h, em frente a Uniban.
    Está sendo convocado pelo movimento feminista, sindical e estudantil.
    A Ministra Nilcea Freire, da Secretaria de Política para as Mulheres, confirmou presença.
    A Uniban fica na Avenida Rudge Ramos, 1501

    Somos mulheres e não mercadoria!!!

  2.   carlos eduardo disse:

    seria um motivo para boicotar essa fabrica de diplomas (unibam)

  3.   Thiago S. Rosa disse:

    Inversão de valores não é algo único na UNIBAN. É algo presente na nossa cultura desde sempre, talvez quando Caminha escreveu aquela carta para a Coroa Portuguesa. Mas ainda bem que este absurdos estão sendo coibidos e apurados. Aposto que até amanhã alguma coisa mude, nem que a Expulsão mude para transferência compulsória para outra entidade, pratica comum para acobertar o termo “Expulsão do quadro de alunos”.

  4.   Paulo Gileno Cysneiros disse:

    Não conheço a UNIBAN, pois moro em Recife. Mas conheço casos parecidos no Nordeste.
    Há aproximadamente sete anos uma aluna foi expulsa de uma universidade particular de Aracaju porque circularam na internet fotos da moça num motel. A instituição agiu da mesma forma que a Uniban, expulsando a aluna. Curiosamente, a sociedade sergipana não focou os rapazes que apareceram nas fotos fazendo sexo com a moça nem em quem divulgou as fotos.

  5.   Maria Lucia disse:

    Não tinha visto esse excelente artigo quando escrevi
    Assédio em massa
    O urro ancestral da faculdade injuriada

    Universitários que encurralaram a colega de vestido curto não eram delirantes: eram agressores mesmo
    Debora Diniz* – O Estado de S.Paulo – QUINTA, 29 DE OUTUBRO

    Vídeos veiculados pelo YouTube mostram a estudante de Turismo Geisy Arruda, da Uniban, em São Bernardo do Campo, sendo xingada e acuada por outros alunos por causa do comprimento do vestido. Ela teve de ser escoltada para fora do prédio por policiais.

    O caso não caberia nem em um folhetim vulgar, não fosse o YouTube denunciando a verdade. A “puta da faculdade” é uma história bizarra: uma mulher de 20 anos é vítima de humilhações. A razão foi um vestido rosa e curto que a fazia se sentir bonita. Sem ninguém saber muito bem como o delírio coletivo teve início, dezenas de pessoas passaram em coro a gritar “puta” e ameaçá-la de estupro.. A saída foi esconder-se em uma sala, sob os urros de uma multidão enfurecida pela falta de decoro do vestido rosa. Além da escolta policial, um jaleco branco a protegeu da fúria agressiva dos colegas que não suportavam vê-la em traje tão provocante.

    Colegas de faculdade, professores e policiais foram ouvidos sobre o caso. O fascínio compartilhado era o vestido rosa. Curto, insinuante, transparente foram alguns dos adjetivos utilizados pelos mais novos censores do vestuário da sociedade brasileira. “A roupa não era adequada para um ambiente escolar”, foi a principal expressão da indignação moral causada pelo vestido rosa. Rapidamente um código de etiqueta sobre roupas e relações sociais dominou a análise sociológica sobre o incidente. Não se descreveu a histeria como um ato de violência, mas como uma reação causada pela surpresa do vestido naquele ambiente.

    O que torna a história única é o absurdo dos fatos. Um vestido rosa curto desencadeia o delírio coletivo. E o delírio ocorreu nada menos do que em uma faculdade, o templo da razão e da sabedoria. Os delirantes não eram loucos internados em um manicomio à espera da medicação ou marujos recém-atracados em um cais após meses em alto-mar. Eram colegas de faculdade inconformados com um corpo insinuante coberto por um vestido rosa. Mas chamá-los de delirantes é encobrir a verdade. Não há loucura nesse caso, mas práticas violentas e intencionais. Esses jovens homens e mulheres são agressores. Eles não agrediram o vestido rosa, mas a mulher que o usava para ir à faculdade.

    Não há justificativa moral possível para esse incidente. Ele é um caso claro de violência contra a mulher. Ao contrário do que os censores do vestuário possam alegar, não hà ¡ nada de errado em usar um vestido rosa curto para ir às aulas de uma faculdade noturna. As mulheres são livres para escolher suas roupas, exibirem sua sensualidade e beleza. A adequação entre roupas e espaços é uma regra subjetiva de julgamento estético que denuncia classes e pertencimentos sociais. Não é um preceito ético sobre comportamentos ou práticas. Mas inverter a lógica da violência é a estratégia mais comum aos enredos da violência de gênero.

    A multidão enfurecida não se descreve como algoz. Foi a jovem mulher insinuante quem teria provocado a reação da multidão. Nesse raciocínio enviesado, a multidão teria sido vítima da impertinência do vestido rosa. As imagens são grotescas: de um lado, uma mulher acuada foge da multidão que a persegue, e de outro, do lado de quem filma, dezenas de celulares registram a cena com a excitação de quem assiste a um espetáculo. Ninguém reage ao absurdo da perseguição ao vestido rosa. O fascínio pelo espetáculo aliena a todos que se escondem por trás das câmaras. Quem sabe a lente do celular os fez crer que não eram sujeitos ativos da violência, mas meros espectadores.

    Pode causar ainda mais espanto o fato de que a multidão não tinha sexo. Homens e mulheres perseguiam o vestido rosa com fúria semelhante. Há mesmo quem conte que a confusão foi provocada por uma estudante. Mas isso não significa que a violência seja moralmente neutra quanto à desigualdade de gênero. É uma lógica machista a que alimenta sentimentos de indignação e ultraje por um vestido curto em uma mulher. A sociologia do vestuário é um recurso retórico para encobrir a real causa da violência – a opressão do corpo feminino. Não é o vestido rosa que incomoda a multidão, mas o vestido rosa em um corpo de mulher que não se submete ao puritanismo.

    Não há nada que justifique o uso da violência para disciplinar as mulheres. Nem mesmo a situação hipotética de uma mulher sem roupas justificaria o caso. Mas parece que uma mulher em um vestido insinuante provoca mais fúria e indignação que a nudez. O vestido rosa seria o sinal da imoralidade feminina, ao passo que a nudez denunciaria a loucura. A verdade é que não há nem imoralidade, nem loucura. Há simplesmente uma sociedade desigual e que acredita disciplinar os corpos femininos pela violência. Nem que seja pela humilhação e pela vergonha de um vestido rosa.

    *Antropóloga, professora da UnB e pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero

  6.   José Roberto disse:

    NOSSA!!! QUANTA GENTE SÉRIA EXISTE NO BRASIL!!!!

    Quem trata a mulher como mercadoria é essa mídia que acolhe mulheres de pouca valorização para brincadeiras erotizadas, piadinhas de duplo sentido, vulgarização sexual e demais bobagens! Estas mulheres é que deixam claro que se trata alguém do sexo feminino apenas como um pedaço de carne! A presença da Sabrina Sato (que tem uma história extremamente ligada a essa idéia mercantilista quanto a imagem da mulher) sendo aceita na manifestação realizada na frente da UNIBAN é daquelas ironias de SE CHORAR DE TANTO RIR!!!!

    O pior não é a fábrica de diplomas chamada UNIBAN, como foi afirmado acima, mas sim a fábrica de idiotas chamada TELEVISÃO PRIVADA, a qual deixa de cumprir o seu papel social junto a problemática sociedade brasileira para exibir uma programação de curiosidade mórbida, falso moralismo, violência, vulgarização sexual… aguçando a parte podre da personalidade das pessoas.

    Se me permitem o espírito crítico, porque é que o mundo tem de prestar tanta atenção nas mulheres que sofrem preconceitos?! Ora, se as mulheres fossem presenteadas com força física provalvelmente estariam oprimindo os homens e transformando essa sociedade em feminista. É claro que a mulher reclama pois quem está no lado perdedor na história da humanidade, em tese, é ela ! Se estivesse no lado vencedor agiria com o mesmo preconceito e segregação contra os homens!
    Basta observar o interminável aumento da presença das mulheres nesta violenta sociedade, bebendo alcool e causando acidentes de trânsito, brigando na frente de escolas, agredindo crianças e idosos como vemos com assustadora frequencia nas televisões, consumindo e vendendo entorpecentes, jogando bebês em latas de lixo, agredindo adversários nos esportes (como vocês devem ter visto estes dias num jogo de futebol) e etc.
    Porque devemos condenar o homem por fazer uso da força que a natureza lhe deu? Se as mulheres tivessem essa força teriam feito o mesmo!!!

    HIPOCRISIA E DEMAGOGIA POUCA É BOBAGEM !!!!!!!!!!!!

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