Software livre na educação é bom e eu gosto!
Muitas vezes, ao falarmos de software livre em alguns ambientes, as pessoas torcem o nariz. E na escola isso não é diferente. Definições como “difícil”, “voltado para técnicos” ou “foi feito para programadores” são comumente associadas ao software livre. Assim, não é de se estranhar que a simples menção de se adotar esses softwares em escolas provoque calafrios e destrua o sono de muitos professores. Entretanto existe muita confusão, tanto nessas definições quanto nos motivos de temor por parte das pessoas. O software livre hoje é não só uma opção viável para uso em ambientes educacionais como também a única eticamente aceitável. Vejamos porque.
Em primeiro lugar, algumas considerações, para quem ainda tem dúvidas sobre o assunto. Os softwares livre são um contraponto aos softwares proprietários. Estes, como o nome indica, são propriedade de alguém – uma pessoa ou uma empresa – e não podem ser alterados por outros que não seus proprietários. Ou seja, você o utiliza do jeito que ele é, sem poder mudar nada. Isso significa que se o software apresentar qualquer problema, você tem que esperar que seu desenvolvedor o conserte. Mesmo que você saiba a solução, não pode tocar no produto. Além disso, a maioria dos softwares proprietários possuem diversos níveis de restrição de distribuição. Alguns podem ser distribuídos somente pelos seus produtores, através do comércio de suas licenças. Outros até são distribuídos gratuitamente, mas mesmo essa distribuição pode possuir regras restritivas – como, por exemplo, terem seu uso vetado em determinados países. E aqui é bom destacar uma distinção: software gratuito não é sinônimo de software livre. Existem muitos programas que são gratuitos e proprietários. Para ser considerado livre, o software tem que atender a quatro premissas básicas: não possuir nenhuma restrição de uso (nem técnica nem geográfica), ter o seu código-fonte disponibilizado e permitir a alteração e a distribuição desse código.
Outra distinção importante é que software livre também não é sinônimo de GNU/Linux (ou Linux, como é, erroneamente, mais conhecido). O GNU/Linux é um sistema operacional e um dos mais famosos softwares livres. Mas não é o único exemplo. Além disso, nem todo software livre precisa do GNU/Linux para funcionar. Existem vários programas que funcionam sob sistemas proprietários, como o Microsoft Windows ou o MacOS da Apple (o navegador Firefox e o pacote de escritório BrOffice.org são dois exemplos, entre muitos outros).
Mas aí vem a pergunta: por que mudar? Se a maioria das pessoas já utiliza determinado produto, não seria muito mais fácil continuar com o que já existe? Bom, nesse caso, temos que ampliar a discussão para o fato de que as tecnologias, assim como qualquer outra atividade humana, possuem uma ideologia, uma intenção. Ao adotarmos um software que não pode ser livremente manipulado, mas somente utilizado, estamos trabalhando em uma lógica de “software para consumo”. Ou seja, você o adquire, utiliza para aquilo que ele foi planejado e, caso ele não atenda suas expectativas, você adquire outro (ou abre mão do seu uso). Sua interação com o software é passiva: você o utiliza e pronto, nada além disso. Até mesmo alterações mínimas, como a sua tradução, são vetadas. Por fim, todo o conhecimento relativo ao software proprietário pertence à empresa que o desenvolveu. Por exemplo se duas pessoas pretendem produzir, cada uma, um software proprietário para edição de música, ambas terão que partir do zero e produzir trabalhos independentes (com uma duplicação de esforços), pois a natureza do seu licenciamento impede que elas troquem informações sobre seu trabalho.
Já o software livre, pelas suas características, pode ser livremente manipulado. Assim sai-se de uma lógica de consumo (unilateral) para uma lógica “interativa” (bi ou mesmo multilateral). É comum alguns softwares livres envolverem, em seu desenvolvimento, dezenas, centenas ou até mesmo milhares de colaboradores, espalhados pelo mundo inteiro. Com isso, ele e capaz de atingir um número maior de expectativas e formas de uso, pois pode ser adaptável a cada uma delas. O botão de “Salvar” não está no lugar que você gostaria? Mude-o! A tradução possui um erro? Corrija-a! Essas são algumas possibilidades de interação com o software livre. Ainda nessa lógica de manipulação do código – e usando o exemplo apresentado acima – dois desenvolvedores que trabalhem com software livre podem produzir produtos distintos com muito menos esforço, uma vez que eles podem trocar trechos de código entre si, o que economiza esforço de desenvolvimento. O trabalho passa a ser dividido entre os dois.
Em relação à produção do conhecimento, a distinção entre o software livre e o proprietário é ainda mais significativa. Todo conhecimento produzido com e pelo software proprietário pertence ao seu desenvolvedor. Já o produzido pelo software livre pertence, literalmente, ao mundo. Toda tecnologia desenvolvida sob um licenciamento livre pode ser reutilizada por qualquer pessoa do planeta para ser melhorada ou incorporada a outras tecnologias – que, obrigatoriamente, também tornam-se livres. Isso garante o avanço tecnológico da humanidade como um todo e não somente de determinados grupos/países/empresas.
Com tudo isso percebe-se que o software livre possui uma forte carga ideológica, que tem muito a ver o ideal das escolas, que é a formação de cidadão críticos e atuantes. Isso porque o software livre estimula a solidariedade, através do seu compartilhamento de código, o engajamento em projetos, através do seu desenvolvimento distribuído, e o respeito às diferenças, ao não fazer distinção das suas formas de uso. Além disso, como o software livre é distribuído livremente, torna-se financeiramente viável a produção de laboratórios de informática. Isso porque, muitas vezes, o custo necessário para a aquisição somente das licenças de uso dos softwares proprietários é o equivalente ao de um computador novo. Ou seja, pode-se utilizar o dinheiro que seria gasto na aquisição de softwares proprietários para comprar mais equipamentos para a escola.
Por fim, existe uma grande variedade de softwares livres para as diversas áreas do conhecimento. Um bom local de consulta da lista de programas disponíveis é o Projeto Classe.. Além dele, uma outra referência é o Projeto Software Livre Educacional. Esse grupo tem por objetivo documentar e traduzir softwares livres voltados para a área educacional. Ele está aberto a participação de voluntários, especialmente pessoas da área educacional.
Portanto, se você quer defender uma educação ética e de qualidade, que tal começar divulgando e defendendo o software livre? Ou ainda faltam motivos pra isso?


Muito Bom!
Software livre é bom e eu tb gosto. Mas tem só um problema na minha opiniao. Refiro-me ao caso dos sistemas operativos livres disponíveis actualmente.
Estou totalmente dependente do Windows e não o consigo substituir pelo linux devido ao autocad por exemplo.
Cump
Olá Software POS,
Uma alternativa livre no nível do Autocad é uma (das poucas, na minha opinião) deficiência que temos no GNU/Linux. Temos o QCad, mas ele não possui o design 3D. Uma alternativa seria rodar o Autocad via Wine no GNU/Linux, mas não sei qual versão é possível instalar (sei que a R14 funciona, mas já é antiga).
Já opções para outros softwares existem aos montes. Depende muito do que se faz (e da vontade de aprender coisas novas).
Um abraço.
Voce já viu algum usuário comum ja modificando o codigo de um aplicativo? Voce acha que quem usa um laboratório com computadores usando um SO livre as pessoas serão impulsonadas a usarem software livre? Acha não que este argumento do codigo é velho o e batido o suficiente?
Não estou tirando a importancia da liberdade ideologica do software livre.
Olá,
Muito bom o texto! Parabéns!
Essas questões sempre proporcionam opniões diversas, eu particulamente acredito que a escolha de um sistema operacional ou software entra na minha lista de escolhas, como todas as outras coisas que devemos optar para as nossas vidas…. nossas escolhas podem parecer individuais mas refletem na sociedade em que vivemos…
Abraços,
Olá Fabio,
Não sei muito bem o que você está chamando de “usuário comum”, mas já vi alunos fazendo isso sim (e o texto fala do uso EDUCACIONAL de softwares livres).
Portanto, não acho que esse “argumento do código” seja “velho e batido”. Pelo contrário, eu o considero atualíssimo, especialmente se considerarmos o estímulo que as escolas técnicas (principalmente federais) estão recebendo.
Quanto à questão de que o uso de laboratórios com softwares livres estimular o seu uso, também é algo que acredito por vivenciar na prática. Já vi vários exemplos de professores que começam a usar o software livre porque os computadores da escola onde trabalham passou por essa migração. Claro que existem aqueles que não abrem mão de softwares privativos, mas se a pessoa não quer ser livre, é uma opção pessoal. Uma opção ruim, mas ainda assim pessoal.
Um abraço.
Olá!
A idéia do software livre é boa e que seu uso pode minimizar os custos para a educação no que se refere ao valor de cada software proprietário é indiscutível, mas daí a achar que professores e alunos estão preparados ou engajados a modificar o código fonte é uma outra história… Mesmo porque existem outras questões, muito mais amplas e complexas, a serem discutidas, a começar pelo tipo de letramento que que a adoção de um software livre demanda!
Olá Juliana,
Em primeiro lugar, a discussão não é somente econômica. É muito mais ampla do que isso. É uma discussão sobre liberdade de uso, segurança e soberania tecnológica. Talvez não tenha conseguido passar isso com o meu texto, mas a ideia era essa.
Em relação ao engajamento, eu concordo que é uma questão pessoal, que é estimulada (ou reprimida) pelas pessoas e instituições que estão à nossa volta. Mas competência para alterar o código existe sim. Claro, isso não acontece na maioria das escolas, mas não podemos negar que existam várias instituições de ensino que trabalham esse tipo de conhecimento com seus alunos, especilamente nas várias escolas técnicas existentes por aí. Um bom exemplo disso são os CEFETs, instituições públicas espalhadas pelo Brasil inteiro. Portanto, a possibilidade de professores e alunos alterando códigos, mesmo no ensino público, não é tão absurda assim.
E não entendi o que você quis dizer com “letramento que a adoção de um software livre demanda”. Por acaso para usar softwares proprietários nós também não temos que aprender a usá-los? Não existe diferença entre aprender a usar um software livre e um software proprietário. As dificuldades enfrentadas pelas pessoas são as mesmas em ambos. O problema é que muita gente pensa que ele é mais difícil sem nem ao menos experimentar. E também tem a questão do paradigma. A gente se “acostuma” a determinada lógica. Eu, por exemplo, tive que usar o Microsoft Office 2007 outro dia e simplesmente não conseguia fazer nada no programa. Fiquei completamente perdido naquela interface nova. O mesmo aconteceu com o Windows Vista (onde eu não conseguia encontrar onde desligar o computador). Portanto, a dificuldade de uso não é uma característica inerente ao software livre. Qualquer um passa por isso, com qualquer tipo de software. Falo um pouco sobre isso nesse artigo do meu sítio pessoal: http://teia.bio.br/node/3808.
Um abraço.
Software livre é a evolução do conhecimento humano. O software proprietário, assim como todo material cultural deveria ser livre. A tendência evolutiva se encaminha para isto. Assim como os fenícios deixaram um legado de conhecimento livre, para a humanidade, de técnicas de navegação, fabricação de barcos, vidro, tecido e artesanato metalúrgico. Foram os criadores do alfabeto, posteriormente adotado com modificações pelos gregos, partir do qual foi instituído o alfabeto latino. Esses conhecimentos científicos foram compartilhados com a humanidade por volta de 800 a.C. Graças a algumas mentes brilhantes hoje temos acesso a novas tecnologias livre de licenciamentos e proibições que impedem o acesso ao código dos sistemas livres. Software livre não é simplesmente o uso de um sistema grátis, é uma filosofia voltada para o desenvolvimento da sociedade, é a socialização do conhecimento. A quem possa interessar, vou sugerir alguns sítios sobre software livre.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Linux
http://pt.wikipedia.org/wiki/GNU
http://www.ubuntubrasil.org/