Trezentos

O início de uma multidão

Ian Tomlinson, manifestações G2.0 e o direito de protestar em Londres

Um vídeo que The Guardian publicou ontem mostra o exato momento que o inglês Ian Tomlinson foi perseguido e atacado pela polícia britânica, dez minutos antes de falecer de ataque cardíaco ao lado do Banco da Inglaterra. As imagens deixam poucas dúvidas sobre o fato de que, ao contrário da primeira declaração feita pelas autoridades de segurança, se a polícia não matou o trabalhador, foi inevitavelmente a causa de sua morte. Tem uma palavrinha só em inglês para isso: manslaughter, o nosso homicídio culposo.

Dos mesmos protestos e da atuação da polícia, há vídeos mais repugnantes ainda. Um deles mostra o empurra-empurra e a cacetada contra outro grupo de pessoas protestando pacíficamente, acampadas e isoladas pela polícia do protesto principal. Essas outras imagens mostram bem como o protesto pacífico terminou em violência – incitada pela polícia. Por sorte, nenhum outro manifestante presente sofria de sérios problemas cardíacos.

Estive lá no G20 Meltdown em carne e osso, e fui testemunha de como a manifestação pacífica se tornou violenta, com toda a ajuda da polícia britânica. Sem água, comida ou banheiros – e depois de muitas horas encurraladas com uma acesso liberado a um supermercado onde as pessoas puderam comprar bebidas – os ânimos se exaltaram. Fiquei entre os encurralados, tomei grito, fui empurrada, e foi justamente um policial que me deixou escapar quando a violência se acirrou logo atrás de mim, sem que eu tivesse para onde correr. Essa técnica de conter e abafar protestos encurralando as pessoas não é novidade, ao que dizem é na verdade usada desde os tempos de Napoleão. Em outras palavras, historicamente ultrapassada.

Uma boa notícia emerge disso tudo: ao passo que nenhuma das câmeras do circuito interno de TV que cobrem toda a cidade de Londres conseguiu capturar nada de significante em conexão com a morte de Ian Tomlinson, que até então, segundo a polícia, não tinha tido nada a ver com os protestos e muito menos com a ação policial, eis que várias pessoas do público têm a oportunidade de não apenas desmentir a polícia, mas também apresentar provas de que a história estava mal contada. Primeiro apareceram os relatos. Depois vieram várias fotos. Por fim, as imagens em movimento são irrefutáveis.

Uma câmera na mão e a notícia à frente

Antes ainda das imagens chegarem ao conhecimento público, o IPCC (uma comissão independente que lida com reclamações contra a polícia) tinha sido chamado para auxiliar a polícia na investigação do caso. Depois das imagens, decidiu-se de que a sindicância será totalmente independente. Após aparecer em cadeia nacional e circular o mundo, o policial que aparece empurrando o jornaleiro deu as caras e confessou a agressão hoje. Dará em algo, ele será preso? Os mais incrédulos dentre os ingleses dizem que não, afinal de contas, trata-se do mesmo IPCC que inocentou os policiais envolvidos na morte de Jean Charles de Menezes. E trata-se de uma campanha maior para restringir liberdades individuais.

Mas o grande fato que não passa em branco é que um cidadão com uma câmera na mão capturou o momento exato do ataque policial. E com isso, a investigação será monitorada de perto pelo próprio público que a possibilitou. É a vitória da mídia cidadã, é a resposta da população armada com a tecnologia contra a vigilância das autoridades, que de outra forma continuariam varrendo a sujeira para debaixo do tapete. É o contra-ataque da população, é o momento do povo de continuar sua própria vigilância dos fatos que acontecem ao redor de cada um. Uma pequena vingança da sociedade não previsa por Orson Welles.

“Mr Brown – Impeça que os bancos caguem na gente”, diz o cartaz carregado por uma distinta senhora com cara de quem não oferece perigo, representante da NSPU (união dos aposentados e pensionistas)

Protesto G2.0 total, legalmente ilegal

O G20 Meltdown foi amplamente divulgado por meio de propaganda boca a boca em mídias e redes sociais, mais notadamente o facebook (com mais de 4 mil membros) e o twitter (mais de mil seguidores), com o download de cartazes a partir do site da coalização que organizou o protesto. Durante o protesto, muitos updates no twitter foram escritos de dentro do cerco por vários usuários diferentes que registraram quase todos os ângulos, de uma forma inédita na história das manifestações inglesas. Mas nem por isso sem farpas na liberdade de expressão digital. Segundo a conta do grupo no Twitter, Marina Pepper, uma das mobilizadoras do evento, teve sua conta de usuária do facebook apagada, depois de postar uma última mensagem que dizia algo do tipo: “A revolução não será televisionada, será facebookeada”.

E está sendo muito tuitado, o antes, o durante e o depois. O protesto que deu início ao mês de abril não foi a primeira vez em que cidadãos comuns, dentro do que consideram seu direito de protestar por uma causa, se depararam com uma polícia “agressiva, grossa e desumana” no Reino Unido, e de manifestantes serem “molestados por uma polícia que faz de tudo para transformar qualquer protesto pacífico em uma ação criminal”. Eu vi isso de perto no último dia primeiro de abril, mas é a imagem de baderna a que fica exposta pela mídia, e que chega aos milhões de britânicos e residentes no país que não se arriscam a protestar.

Na verdade, o direito de protestar é algo que aceitamos como legítimo e garantido, parte de nossos direitos garantidos sob a liberdade de expressão com a qual nos presenteia a constituição brasileira. Só que o Reino Unido não tem constituição. Nem o direito à manifestação livre. É considerado ilegal qualquer protesto que, mesmo pacífico, não atenda a uma série de requisitos, dentre os quais não causar disrupções de nenhuma espécie nem que seja a uma rua apenas. Para serem “legais”, protestos maiores devem ser comunicados e autorizados com meses de antecedência, e dentre as informações fornecidas devem constar a quantidade estimada de participantes e a rota completa. Para que a polícia acompanhe e cerque. É proíbido esconder o rosto durante um protesto, mas o batalhão de choque pode. E a polícia estrategicamente fotografa e filma tudo. É a era da surveillance digital, ao vivo e em cores, sem que possamos legalmente protestar contra isso, a não ser na web.

Muito pouco escapou das lentes dos policiais que filmavam e fotografavam os protestantes de pontos estratégicos. Nenhum deles parece ter conseguido, no entanto, filmar o momento em que um homem inocente foi atacado pelas costas pela polícia

Mais um protesto “ilegal” está sendo organizado para o sábado, 11 de abril. O “Levante da Páscoa” marcará o luto e a exigência por justiça para o inocente que morreu durante o primeiro protesto organizado pelo grupo. Os participantes devem vestir preto e levar uma flor para Ian Tomlinson. Ponto de encontro: 11h30am do dia 11/04, Bethnal Green, e de lá em marcha solene para mais uma tomada da City.

Adendo:

Indignada como testemunha do desenrolar dos eventos, tem uma coisa que não posso deixar de esclarecer: acho que a polícia britânica agiu de maneira errada, e não a defendo nem um milímetro. Espero a punição até para o responsável pela operação desastrosa tida como um sucesso, Comandante Bob Broadhurst. Mas não posso comparar o que aconteceu em Londres no dia primeiro de abril com a situação cotidiana no Brasil, onde sabidamente a polícia mata e depois pergunta, dia sim, dia não: em geral, a Polícia Metropolitana de Londres nunca sai por aí matando ninguém, e nem em uma situação extrema – ou pelo menos fora do normal, como foi o caso protesto – havia armas de fogo a vista, só cacetetes e escudos. Polícia para quem precisa, mas sem comparações, nem generalizações.

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4 comentários para “Ian Tomlinson, manifestações G2.0 e o direito de protestar em Londres”

  1.   brotherbull disse:

    Parece até que o circuito de câmeras de segurança de Londres (CCTV) foi fechado na véspera do G20.

Trackbacks & Pingbacks

  1. “A revolução não será televisionada, será facebookeada” « NeoIluminismo:

    [...] “O G20 Meltdown foi amplamente divulgado por meio de propaganda boca a boca em mídias e redes sociais, mais notadamente o facebook (com mais de 4 mil membros) e o twitter (mais de mil seguidores), com o download de cartazes a partir do site da coalização que organizou o protesto. Durante o protesto, muitos updates no twitter foram escritos de dentro do cerco por vários usuários diferentes que registraram quase todos os ângulos, de uma forma inédita na história das manifestações inglesas. Mas nem por isso sem farpas na liberdade de expressão digital. Segundo a conta do grupo no Twitter, Marina Pepper, uma das mobilizadoras do evento, teve sua conta de usuária do facebook apagada, depois de postar uma última mensagem que dizia algo do tipo: “A revolução não será televisionada, será facebookeada”.” Ver post completo [...]

    --10 de abril de 2009 @ 23:33
  2. Jean Charles de Menezes lembrando em protesto por justiça para Ian Tomlinson | Trezentos:

    [...] nem intimidou os manifestantes (só fizeram algumas anotações), apesar dessa ter sido mais uma manifestação “ilegal” em [...]

    --11 de abril de 2009 @ 16:01
  3. banco de imagens:

    banco de imagens…

    Meu, vcs viram o monte de banco de imagens que hoje tem no mercado? Eu prefiro sempre usar os brazucas para dar uma força pros nossos irmãos….

    --31 de julho de 2009 @ 22:10

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