Trezentos

O início de uma multidão

RELATÓRIO DA ASSOCIAÇAO INTERNACIONAL DA PROPRIEDADE INTELECTUAL AGRADECE APOIO DE POLICIAIS AMIGOS E DIZ QUE APCM NÃO PROCESSA REDES P2P COM RECEIO DA OPINIÃO PÚBLICA

O Relatório da INTERNATIONAL INTELLECTUAL PROPERTY ALLIANCE® (IIPA, Associação internacional de Propriedade Internacional) que trata da proteção e da denúncia da violação de copyright em todo o mundo teve sua última versão lançada recentemente com o nome “IIPA’s 2010 Special 301 Report”.

Ao invés de reconhecer as mudanças e possibilidades que a Internet oferece para todas as sociedades, a articulação da MPAA, RIAA e da Business Software Aliance, neste relatório, assume integralmente o seu obscurantismo.

Buscando ampliar a criminalização de práticas coletivas e cotidianas de milhões e milhões de internautas, a IIPA, Associação internacional de Propriedade Internacional que no relatório 2009 fazia referência a necessidade de aprovar o AI-5 Digital no Brasil, agora chegou aos limites da agressividade.

Logo no início do relatório a IIPA afirma que
“A ‘pirataria’ como o conhecemos hoje em dia está ocorrendo de forma cada vez sofisticada, utilizando ou fornecendo aos usuários materiais sem autorização de direitos autorais sem autorização, ao invés de simplesmente realizar sua a duplicação e venda de conteúdo em mídia física nas lojas de varejo ou nas ruas.” (…) “Essa pirataria é feita de inumeráveis formas, do compartilhamento de arquivos P2P, deeplinking sites, compartilhamento BitTorrent, cyberlockers, quadros de avisos na web, e outros serviços semelhantes.”

Na página 13 do documento que mais parece uma bomba, pois suas próprias frases são autodestrutivas e demonstram exatamente o quão absurda é a sua visão, temos

“Na Espanha, com uma das taxas mais elevadas da Europa de compartilhamento ilegal de arquivos  Europa, estima-se que as vendas de artistas locais do top 50 caíram 65%, entre 2004 e 2009. Na França, onde um quarto dos downloads na internet são ilegais, os álbuns dos artistas locais tiveram uma queda de 60%, entre 2003 e 2009. A situação do Brasil, país rico culturalmente, é semelhante.”

Dois breves comentários. Primeiro, qual a fonte destes dados? A IIPA não diz. São projeções baseadas em premissas erradas, chutes de advogados em petições que seriam cômicas se não fossem obscuras. As pesquisas demonstram que as vendas de CDs por artistas caem muito mais em função da crescente diversidade de oferta de músicos ocorrida com a Internet do que com a cópia ilegal. O que a indústria do copyright não quer ver é a crise da intermediação. Antes as gravadoras controlavam quem podia e não podia fazer sucesso. Com a Internet, uma jovem banda não precisa mais pagar “jaba” para ser conhecida por milhares de pessoas na rede (vide Teatro Mágico, Móveis Coloniais, etc).

Segundo, repare no “tiro-no-pé” que é o próprio texto da IIPA. Ele chama claramente os milhões de jovens e adultos europeus que fazem download de criminosos. É óbvio que existe algo errado com uma lei que transforma a prática cotidiana de milhões de pessoas em crime. É nítido que ninguém acredita que o compartilhamento de bens culturais seja um problema social, ao contrário, se a IIPA conseguisse impor sua lógica aí, sim, teríamos um grave problema para a criatividade e para a disseminação da cultura.

Agora, reparem bem no longo trecho a seguir extraído da página 178 do relatório da IIPA, quando este se debruça sobre o Brasil:

“Retenção de dados: a Business Software Aliance assinala que não há legislação específica que estabeleça um período de tempo mínimo para os provedores de Internet mantenham os registros das transações realizadas na Internet. Atualmente os provedores estão mantendo os dados para um período curto, o que torna difícil para acompanhar e investigar a pirataria nas redes P2P (idealmente tais dados devem ser conservados pelo menos durante 6 meses a 1 ano). Em um recente contencioso judicial iniciado por um grupo nacional da indústria fonográfica (ABPD) contra um grupo de uploaders de São Paulo, foi inviabilizado quando o Tribunal confirmou o direito do autor de obter as provas. No entanto, o provedor foi incapaz de fornecer os dados, tendo em conta o longo período passou para a resolução do recurso. O provedor de acesso simplesmente “perdeu” a informação enquanto se esperava decisão do recurso. Esta deficiência específica certamente pode frustrar os esforços desenvolvidos pela indústria fonográfica no Brasil para desafiar a troca em massa de arquivos de música ilegal que ocorre através das redes P2P. O Conselho Nacional Contra a Pirataria (SIC) deve dedicar recursos para a analisar a legislação pertinente, no Brasil, a fim de fornecer recomendações claras para uma solução destes casos.”

Observe que a IIPA é a maior interessada na violação da privacidade e guarda automática dos logs de navegação. Ela conta com um poderoso lobby dentro da Polícia Federal e com o apoio de alguns membros do Ministério Público. A IIPA quer que o direito ao conhecimento, o direito humano à comunicação, à liberdade de expressão e o direito de navegar sem ser vigiado sejam subordinados à exigência de cerceamento das obras protegidas pelo copyright.

Sem dúvida, aqui temos a maior das aberrações. Veja, ainda, na página 178:

“Execução penal: a APCM (uma ONG anti-pirataria) percebe que a pirataria na Internet não será a prioridade para a polícia, mas agradece o apoio de policiais de unidades especiais do cibercrime, tanto na polícia federal e estadual. Diversos processos penais foram realizadas em colaboração com a Polícia Federal e Polícia Civil contra os piratas da Internet que vendem DVDs piratas e aqueles que oferecem a venda de filmes pirateados através de redes sociais, como o Orkut. Atualmente, a APCM não está processando qualquer caso ilícito nas redes P2P, por causa das possíveis repercussões negativas com o público em geral e com o governo.”

O documento não podia ser mais claro. Eles atuam dentro do Estado. Estas associações da indústria de copyright fazem a polícia agir de acordo com seus interesses. Por isso, querem uma redação genérica das lei de crimes na Internet, para poder agir e criminalizar práticas corriqueiras e comuns na rede. O mais interessante é que o relatório da IIPA reconhece que a ação absurda que a APCN desfechou contra a comunidade Discografias, no Orkut, foi um “tiro pela culatra”. Apesar do relatório dizer que se vende músicas nas redes P2P, todos sabem que elas são compartilhadas generosamente, como ocorria na comunidade Discografias.

Precisamos ficar atentos, pois este segmento obscuro da indústria cultural e seus representantes sabem que não podem dizer tudo. Se escondem em redações marotas, em discursos em defesa das crianças, mas o que querem mesmo é implantar na Internet a cultura da permissão e colocar a criatividade sob o seu controle. Estamos alertas.

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12 comentários para “RELATÓRIO DA ASSOCIAÇAO INTERNACIONAL DA PROPRIEDADE INTELECTUAL AGRADECE APOIO DE POLICIAIS AMIGOS E DIZ QUE APCM NÃO PROCESSA REDES P2P COM RECEIO DA OPINIÃO PÚBLICA”

  1.   Jomar Silva disse:

    É a máfia do copyright agonizando em praça pública, tentando subverter a soberania e as instituições nacionais.

    Que se mudem para MARTE e criem lá uma sociedade que não possa compartilhar. Essa aqui já é nossa !

  2.   Lucio disse:

    Viu que eles querem a guarda de logs.

  3.   Gato de Botas disse:

    Quem puder pagar por um conteúdo protegido é interessante que pague, pois as indústrias fonográficas, mesmo rolando “jabá”, financiam grandes empreendimentos que ficariam ocultos se dependessem apenas da capacidade dos artistas para promover suas obras. Por outro lado, as redes P2P devem sempre existir para que as pessoas que não possam pagar por uma obra tenham a oportunidade de ter contato com elas. Mas alguém tem que pagar a conta, quem seria?

    A maioria dos programas P2P e comunidades de compartilhamento possuem links patrocinados que geram renda para os idealizadores do software ou da rede. Seria legítimo se as indústrias culturais recebessem um retorno financeiro destas pessoas em resposta ao investimento por ela feito, mesmo porque sites de compartilhamento geram rendas nada modestas para seus criadores, os quais enriquecem graças aos cliques de curiosos e principalmente pelas janelas de redirecionamento automático – quem nunca teve o desgosto de clicar para baixar o albúm da banda preferida e cair numa janela com a propaganda de cirurgia de aumento peniano, que atire a primeira pedra!

    Infelizmente, o lucro que a arte gera para uma camada privilegiada da sociedade é fundamental para que haja a busca por aprimoramento, visto que as iniciativas amadoras tendem ao nivelamento por baixo e difusão através de memes. É uma contradição necessária, pois se a pirataria triunfar perderemos e se os defensores dos direitos autorias prevalecerem estaremos de volta ao apartheid cultural que vigorou antes do nascimento da grande rede.

  4.   Julio disse:

    Como esta associação é cara de pau!

  5.   Alan Araguaia disse:

    Estão na contramão da história…

  6.   Marcelo Salgado disse:

    Lembrei de imediato da história do Alienista. Quem foi colocado dentro da Casa Verde, que acabou por ser a maioria, era “maluco” mesmo..? Da mesma forma, os tais milhões de simples cidadãos são necessariamente criminosos?

    Que lógica enviesada em favor da mentalidade de massa e do controle, hein.

  7.   Fascismo de classe disse:

    O nosso querido Sergio Amadeu, apesar de realisticamente alarmista não deve ter lido TODO O RELATÓRIO EXTENSO COM CENTENAS DE COBRANÇAS DETALHAS AO BRASIL, como eu (tive a paciencia de deciar HORAS) e li! Sergio, em seu alarmismo e crítico foi AINDA ASSIM MUITO TÍMIDO, MUITO LONGE DE DEMONSTRAR O REAL PERIGO DESTE RELATÓRIO E DESSAS ASSOCIAÇÕES DO COPYRIGHT NORTE-AMERICANAS!!!!!!!!!!!!!!!

    Não disse inúmeras coisas AINDA MUITO PIORES, como eles QUEREREM MANDAR NO NOSSO JUDICIÁRIO, NA NOSSA POLÍCIA, NO NOSSO GOVERNO! Ao dizer que:

    1) penas de violação do copyright deveriam aumentar para pena de prisão e as multas deverias ser muito maiores.

    2) indenizações civis contra usuarios que dão download deveriam ser milionárias contra cada um, para inibir.

    3) a polícia deveria ter mais orgãos dedicados ao copyright, E CLARO, PAGOS COM O DINHEIRO PÚBLICO para essa dedicação

    4) depósitos para mercadorias apreendidas deveriam aumentar CENTENAS DE VEZES E CUSTEADOS COM… O DINHEIRO PUBLICO

    5) deveriam acelerar os processos do copyright para pouco tempo e sem direitos á muitos recursos por parte do réu, nem do juiz ter o dinheiro de extinguir ou minorar a ação por ser de pouco poder ofensivo o “crime”!

    6) que estão descontentes pelo governo e justiça brasileira DESOBEDEREM ÁS ELES (OS PATRÕES E DONOS DO PAÍS) lá do USA, de desde 2007 cobrarem VARAS ESPECIAIS DA JUSTIÇA PARA JULGAR UNICAMENTE CRIME DE COPYRIGHT, dando agilidade, com poucos recurso e de dureza nas decisões contra as pessoas! E ESTAS VARAS CUSTEADAS COM NOSSSSSSSSSSSSSSSO DIREITO! Criticam a lentidão de nossa justiça, criticam nossos juizes não darem muita bola aos crimes de copyright, a falta de prisão e indenizações milionárias, os muitos recursos e tempo demorado nas ações (calcularam que alguns casos pode chegar a 10-15 anos – claro, querem embolsar logo o dinheiro dos brasileiros preocessados, afinal, OM IMPÉRIO TÁ FALINDO E PRECISA DE TRILHÕES DE DOLARES ADVINDOS DOS PROCESSOS CONTRA USUÁRIOS), e pedem leis impossibilitanto o juiz de extinguir ações por q1 justificativa q for ou de diminui-la.

    7) Pregam q a ação contra os usuários de internet dessa ser: vigilantismo direito, extra oficio, processo criminal com cadeia e processo civil com altíssimas indenizações a ao preço de x vezes cada software.

    8) Pregam o extra ofício, TÁTICA NAZISTA da policial VIOLAR DIREITOS SEM A ANUENCIA DE UM JUIZ E MANDATO PREVIO QUE A AUTORIZE!!!!!!!!! (com o extra oficio a policia teria direito de todos seus dados e grampo sem ordem judicial, por tempo indefinido, invadir sua casa e confiscar seu computador sem mandato, te prender se bobear – NAZISMO PURO!!!!!!!!!!!!!!!!)

    Agradecem o apoio do Ministro da Justiça e pedem que eles cumpram o q prometeram. Pede que a PF se dedique mais. Pedem que se pressione os provedores para colaborarem em vigiar seus usuarios.

    9) Pdem que as mídias virgens sejam varridas das lojas e somente algumas lojas poderiam comercializar, mas nunca abaixo de um “preço mínimo” (imagino qual seja……….)

    FASCISMO PURO E MUITA CARA DE PEROBA DE QUEREREM MANDAR NUM GOVERNO DEMOCRÁTICO AUTONOMO! FASCISMO DE CLASSE. TEREMOS MUITA LUTA PELA FRENTE, pessoal.

  8.   Julio disse:

    Xiiiii! Será que vão enquadrar o Brasil no “eixo do mal”? Estes caras são muito truculentos.

  9.   samadeu disse:

    Concordo que o meu post é apenas um alerta e que o relatório é bem pior.
    Outro ponto: a imagem do Alienista que o Marcelo Salgado nos traz é perfeita. A indústria de copyright é como o Dr Simão Bacamarte.

  10.   Sr. copyright disse:

    e a liberdade individual do autor que sobrevive dos direitos autorais, como fica? só querem saber de downloads pra cá e pra lá

  11.   Pirata disse:

    O capitalismo é isso…Ñ passa de um nazismo hipócrita!!!

    Ao “Sr. copyright”
    Eu pago 85 reais por uma net de 3 mega. Desses 85 reais, 25 são só de impóstos, ou seja 30 %, pq ñ destinar esse percentual à indústria? Ñ seria uma boa ideia? Eu por exemplo, ficaria muito feliz se isso acontecesse.
    Existem várias soluções para a autor lucrar ao invés de ficar dando murro em ponta de faca e tiro no próprio pé. rsrsrs

    Sabe aquela lei francêsa que a indústria disse que ia acabar com os downloads ilegais?
    Se liga!!!
    http://torrentfreak.com/piracy-rises-in-france-despite-three-strikes-law-100609/

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    This post was mentioned on Twitter by samadeu: http://www.trezentos.blog.br/?p=4231...

    --27 de fevereiro de 2010 @ 17:12

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