Trezentos

O início de uma multidão

MINC – UMA AGENDA À PROCURA DE UM PROJETO

 

Por Carlos Henrique Machado Freitas

 

Desde o primeiro dia eu sabia que Marta teria que enfrentar uma cadeira fria de um Ministério sem projeto, sem espírito próprio. O Ministério da Cultura há muito está num sono profundo e, dentro desse ambiente, a luz não penetra, tudo está sendo tocado pelo automático.
No caso de Marta, à medida em que a vestimenta não cabe em determinado manequim, é feito um ajuste aqui, outro ali, mas tudo dentro do que já está pré-estabelecido pelo limitado sistema que está longe de representar a expressão da cultura brasileira.
O Vale-Cultura que prometia ser a invenção de uma nova relação na vida cultural brasileira, sofreu um revés representativo que praticamente anulará os seus respectivos resultados. Com a inclusão do uso do crédito para TV por assinatura, o Ministério alimenta o próprio sistema hegemônico e produz um resultado de superposição. Com isso vai se facilitando o aprofundamento de uma crise em que a mídia usa o seu controle remoto para determinar sua própria moral, vigiar as instituições a seu modo e gosto para que o espírito antirrepublicano representado, sobretudo pelos seus impérios que estão cada vez mais concentrados atinjam o coração da vida nacional.
O MinC há muito tempo se transformou num instrumento do setor corporativo. Seus objetivos estão em busca de uma vitória, de uma conquista e de uma sedução pelas lógicas do mercado cultural. Com a apetitosa Lei Rouanet, um símbolo que corrompe o sentido da democracia cultural, os ideais corporativos se tornam dia após dia mais atraentes e derradeiros.
Não há um foco nas transformações reais da sociedade, apenas uma fabricação de ideias que, ao contrário do ministério fazer justiça com a própria leitura da sociedade, copia represálias institucionais dos grandes conglomerados. E a exacerbação do fosso entre o MinC e a sociedade se torna cada vez mais explícita.
Definitivamente o Ministério da Cultura não é um capital político do governo Dilma. Sem critérios, podemos dizer que praticamente o MinC compra os critérios das grandes corporações, o que equivale a dizer que, de forma concreta hoje inexiste um projeto próprio em sua agenda, apenas um conjunto de parâmetros segundo os quais as grandes corporações e seus institutos e fundações classificam como possível dentro do território da cultura.
Do ponto de vista da sociedade nada é representativo e tudo se torna uma grande contradição. A bandeira do terceiro-mundismo vai ressurgindo nesse emaranhado de paradoxos que acabam por desenhar o labirinto no qual hoje a própria Ministra da Cultura se encontra. E o resultado não pode ser outro, na emergência dentro de cada vetor vão sendo criadas novas contradições. Uma colaboração efetiva aos organismos vivos da cultura brasileira praticamente fica de lado. Os parceiros institucionais nesse jogo frágil do MinC estão associados aos grandes negócios da cultura, como é o quadro da globalização cultural, aonde os atores hegemônicos permitem pensar a cultura apenas em um universalismo construído por eles. E dentro dessa interpretação a consciência de ser brasileiro diante do mundo acaba sendo terceirizada, desumanizada em nome de uma unidade de obediência às normas do grande capital.
Esperávamos o renascimento do MinC e, com ele, uma reação em cadeia da sociedade contra o retrocesso que, nas mãos de Ana de Hollanda, teve papel passivo diante dos interesses do mercado, mas sobretudo do Ecad e de sua relação com as major’s.
Pelo visto o desafio de termos um ministério de fato voltado à cultura brasileira está longe de se tornar realidade. O MinC segue o modelo econômico do mercado global de cultura. E o que vemos é uma combinação econômica entre os impérios da mídia e os impérios financeiros, os Marinho e os Setúbal, com seus institutos e fundações, que vão introduzindo as mudanças nas relações institucionais de nossa cultura fazendo com que o Estado tome as suas próprias características nesse território com preocupação cada vez menor com a ordem social, cultural e moral nas relações concretas entre os brasileiros.

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