Trezentos

O início de uma multidão

que os pobres louvem os pobres

São Paulo, sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Que os pobres louvem os pobres
GIUSEPPE COCCO

Os governos Lula fizeram uma política dos pobres, e é ela que constitui o quebra-cabeça sem solução para a oposição

ELA PRIMEIRA vez a economia brasileira não foi abalada pelo choque exógeno. Outra grande inovação: o Brasil se tornou um ponto de referência -ao mesmo tempo- do processo constituinte que atravessa a América do Sul e dos esforços de democratização da governança mundial da globalização. Como nas economias centrais (mas sem precisar mobilizar o mesmo volume de recursos), o governo Lula interveio para restaurar o crédito e subsidiar a produção industrial. Mas a verdadeira novidade é que as políticas sociais são hoje o motor da retomada do crescimento.

Um numero crescente de estudos já indicava que as transferências de renda (em particular o programa Bolsa Família) contribuíam para a redução sem precedentes da desigualdade de renda e para a pujança do consumo dos pobres (que as estatísticas chamam de “classes D e E”).
Pesquisa do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) revelou a existência de um potente coeficiente multiplicador: o aumento de R$ 1,8 bilhão do Bolsa Família (em 2005 e 2006) provocou um crescimento adicional do PIB de R$ 43,1 bilhões. A transferência de renda não apenas reduz a desigualdade mas também mobiliza o trabalho (cria riqueza).

Lembremos agora as duas grandes críticas ao primeiro governo Lula. A dogmática neoliberal gritava pelas “portas de saída”, contra transferências de renda desfocadas e assistenciais. A doxa desenvolvimentista esnobava a “esmola” e gritava pela mudança radical de política econômica.

São dois fundamentalismos -opostos entre eles- que criticam o governo Lula em nome de uma mesma fé na moeda: “In God we trust” está gravado nas notas do dólar, “Deus seja louvado” naquelas do real. Para uns, o mercado é Deus, com suas taxas de juros (e lucro). Para outros, Deus é o Estado e suas taxas de crescimento (industrial) e pleno emprego.

Nos dois casos, o critério de justiça é transcendental: o dinheiro é divinizado. Nele, o valor assume uma existência soberana. A vida vai depender do dinheiro, e não o dinheiro da vida.

Claro, as duas justiças não são equivalentes: a religião do mercado não distingue entre ganhos financeiros e lucros industriais -para seus sacerdotes, Lula é o diabo que inferniza o paraíso terrestre dos ricos. A dogmática do Estado afirma a necessária inclusão dos pobres pelo emprego industrial. No segundo caso, chega-se até a indignar-se diante da miséria.

Não por acaso, os desenvolvimentistas constituem vertente importante do governo. O problema é que eles enxergam Lula como um anjo que, descendo à Terra, deveria aplicar a justiça: decretar a baixa das taxas de juros para o crescimento econômico criar empregos e riqueza.

Só que a economia real comuta as duas razões transcendentais: as taxas de juros podem ser substituídas por aquelas da inflação, e vice-versa. A fé no poder abstrato da moeda não nos diz nada das relações de força que significam quanto ela “vale”, quer dizer, da moeda enquanto relação social.
O horizonte de outra política depende, pois, da ruptura dessa comutação, quer dizer, de quanto a mobilização democrática é capaz de manter a moeda dentro de seu sistema de significação sem deixar que seja arrastada do lado da fé e da transcendência.

Essa ruptura não depende da aplicação de um critério abstrato de justiça, mas da produção de uma outra justiça: não mais o valor do soberano (seja ele o mercado ou o Estado), mas aquele dos pobres: dos muitos enquanto muitos.

Foi a política social que permitiu fazer a necessária (e ainda moderada) inflexão na política econômica (o PAC e a amplificação dos outros investimentos sociais de educação e saúde) sem que a chantagem da inflação se reconstituísse. Não se trata nem de macro nem de microeconomia, mas da mobilização democrática e produtiva da multidão dos pobres.

Os governos Lula fizeram uma política dos pobres, e é ela que constitui o quebra-cabeça sem solução para uma oposição estonteantemente incapaz de inovação.

A política dos pobres torna obsoletas as equações econômicas: o 0,8% do PIB (em transferências de renda: Bolsa Família e Beneficio de Prestação Continuada) é muito mais potente do que os 6% gastos em juros da dívida pública. A justiça não depende mais de um anjo que desça do céu, mas da metamorfose de todos os homens em anjos. Nas notas do real poderemos escrever: “Que os pobres louvem os pobres”.

Nas eleições de 2010, será necessário dar mais um passo na direção que leva do 0,8% ao 6%, quer dizer, a constituição de uma renda universal incondicionada para os mais pobres.
GIUSEPPE COCCO , 53, cientista político, doutor em história social pela Universidade de Paris, é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autor, entre outras obras, de “MundoBraz: O Devir Brasil do Mundo e o Devir Mundo do Brasil”.

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11 comentários para “que os pobres louvem os pobres”

  1.   Anônimo disse:

    Governou para os pobres de espírito de seu partido, inclusive.

  2.   Pierre do Brasil disse:

    Texto preciso e oportuno. Leitura recomendada!

  3.   Anônimo disse:

    Com as vênias de estilo, quero divulgar a notícia a seguir.

    Enquanto Brasília está pegando fogo com as pessoas indo às ruas para protestar contra os atos de corrupção do DEM, o PIG não dá ênfase para o caso “Panetonagate”

    Leia o elo não tão perdido entre o Arruda e o DEM.

    O sítio Congresso em Foco denuncia as relações promíscuas entre o Arruda e alguns caciques do DEM, essa relação é movida por bons vinhos e viagens caras.

    Detalhe: o Deputado ACM Neto não desmentiu a revista, disse que suas despesas foram pagas por ele próprio (ACM).

    “O governador disse que pretende dedicar-se agora a cumprir o que lhe resta de mandato. Mas talvez não haja chantagem suficiente para segurá-lo no posto. Ele enfrentará um processo de impeachment na Câmara de Brasília – e os imprevisíveis desdobramentos das in-vestigações, que poderão esbarrar na conexão nacional que Arruda tanto alardeia nos bastidores. O elo nem tão perdido entre o DEM e Arruda atende pelo nome de Paulo Roxo, lobista apontado como “achacador” de fornecedores do governo do DF. No Carnaval deste ano, Roxo levou os deputados Rodrigo Maia e ACM Neto para passear na Itália. Tomaram bons vinhos e visitaram a pista da Ferrari, em Maranello. Antes de o escândalo vir a público, Roxo, Arruda e Maia planejavam divertir-se com a família na Disney, em janeiro”.

    Leiam também: http://congressoemfoco.ig.com.br/noticia.asp?cod_canal=1&cod_publicacao=31116

  4.   Rodrigo Cacilhas disse:

    Muito bom artigo e, como disse Pierre, oportuno! Reblogado: http://montegasppa.blogspot.com/2009/12/que-os-pobres-louvem-os-pobres.html

    []’s
    Cacilhas, La Batalema

  5.   Roneyb disse:

    Essa área econômica é complexa para mim, mas se entendi corretamente (e usando uma metáfora que me é familiar), a redução da miséria através de programas de transferencia te renda tem permitido que as pessoas que deixam a miséria produzam riqueza em razões mais de 20 vezes maiores que os gastos?

    Em virtude disso deveríamos pensar em um tipo de renda universal para quem não conseguisse produzir construindo assim algo parecido com os princípios da Federação imaginada por Gene Roddenbery em Star Trek?

    Confesso que meu lado nerd se anima com a possibilidade. Creio que, apesar da descrença e do medo, o que todos queremos é um mundo onde ninguém seja miserável e todos tenham chances de consolidar suas potencialidades

  6.   Adilson disse:

    Com a devida licença quero fazer menção a outra notícia, que no meu sentir é importantíssima para quem ainda preserva a ética e os bons costumes.

    Essa notícia é fantástica para quem tem uma vírgula de ética e de bons costumes, e péssima para quem imaginava que o Delegado Protógenes estava liquidado.

    Do sítio dos “Amigos do Presidente Lula”

    “O ministro do Esporte Orlando Silva (PCBdoB), requisitou o delegado Protógenes Queiroz (PCdoB/SP) para integrar o governo federal, em seu ministério.

    A função é para atuar como uma espécie de assessor de segurança para grandes eventos esportivos, principalmente a Copa de 2014, no Brasil.

    Protógenes já é membro do comitê de segurança da FIFA, a Federação Internacional de Futebol, e foi indicado ao cargo pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF)”.

    Ou seja, Protógenes comandará as ações de inteligência que envolverão os grandes eventos esportivos do Brasil, a começar pela Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos.
    Para quem estava pensando em se dar bem por meio do furto na Copa do Mundo e nos Jogos Olímpicos, agora é melhor pensar mil vezes.

  7.   Juquinha disse:

    Mao de obra especializada que é bom nada. Melhoria da educaçao? Onde?

    O brasileiro ainda continua sem um projeta de vida, um projeto que o torne um cidade que respeita o país e que saiba fazer escolhas!

    O pobre como sempre esta sendo enganado pelo poder!

    De fato, ninguem nesta país governou diretamente para os pobres, mas e daí!

  8.   Anônimo disse:

    JUQUINHA vai chupar bala juquinha se tá por fora véio !

  9.   zhang disse:

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  11.   happy disse:

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