A Esquerda nos Eixos e o novo ativismo
A Esquerda nos Eixos e o novo ativismo
Ivana Bentes
Pretendia escrever um texto de avaliação sobre as Marchas da Liberdade em todo Brasil quando vi este artigo na rede ["A esquerda fora do eixo, publicado dia 17 de Junho de 2011 no site Passa a Palavra com assinatura coletiva http://passapalavra.info/?p=41221] sintomático da perplexidade de certos setores da esquerda tradicional com as mudanças e crise do capitalismo fordista e as novas dinâmicas de resistência e criação dentro do chamado capitalismo cognitivo (pós-fordista, da informação ou cultural).
Crise e desestruturação que tem como horizonte a universalização dos meios de produção e infra-estrutura pública instalada, a constituição de novos circuitos e mercados e a emergência de uma intelectualidade de massa (não mais o “proletariado”, mas o cognitariado) com a possibilidade da apropriação tecnológica por diferentes grupo (software livre, códigos abertos, cultura digital).
Crise e paradoxo onde o próprio crescimento gera e multiplica precariedade, mas também novas dinâmicas e modelos.
O capitalismo da “abundância” produz crise ao entrar no horizonte da gratuidade/compartilhamento/colaboração com uma mutação da própria idéia de “propriedade” (ver a crise do Direito Autoral).
O texto percebe as mudanças, estruturais, mas não consegue ir além nas conseqüências e funciona como uma caricatura que busca demonizar as novas dinâmicas sociais e culturais pós-fordistas e despotencializar a cultura digital, o midiativismo e as estratégias de apropriação tecnológicas das redes, inclusive a apropriação de ferramentas como o Facebook, twitter e outras para causas e objetivos próprios, como fizeram os árabes e os espanhóis, hackeando as novas corporações pós-fordistas.
Falta ao texto (além de diagnósticos equivocados sobre a “nova classe dominante”) um arsenal teórico minimamente a altura das mutações, crises e impasses do próprio capitalismo.
Há uma frase sintomática neste artigo que me chamou atenção e que esclarece em muito sobre “quem” fala e de “onde” fala sob a assinatura anônima/coletiva:
Diz: “é praticamente impossível para um observador desatento ou viciado nas velhas estruturas identificar e combater o novo sujeito formado por este coletivo (ou rede).”, referindo-se ao Circuito Fora do Eixo a quem os autores atribuem _ numa teoria “conspiratória” que não esconde uma envergonhada admiração_ praticamente tudo o que está acontecendo de mais interessante na cena do ativismo brasileiro!
A frase explicita o medo diante das novas dinâmicas que estão sendo inventadas e experimentadas “fora do eixo” da esquerda clássica, criando experiências e conceitos que explodem o arsenal de teorias maniqueístas fordistas de uma esquerda pautada pelo capitalismo do século XX, incapaz de enxergar as “revoluções do capitalismo”, dentro “do” capitalismo e que vem sendo discutidas pelo menos desde maio de 68 ou logo depois quando, por exemplo, os teóricos-ativistas Gilles Deleuze e Félix Guattari lançaram o extraordinário manifesto “O Anti-Édipo ou Capitalismo e Esquizofrenia”, de 1972. Ou que ignora as análises sobre as mutações do capitalismo tematizadas por um teórico comunista como Antonio Negri, nos livros “Império” e “Multidão”, dois clássicos contemporâneos.
A frase dá bem a dimensão desse medo e incompreensão do novo e aponta a própria incapacidade de ver dos autores do artigo.
O observador “viciado nas velhas estruturas” é exatamente “quem fala” neste texto, que também se entrega, medroso e preocupado, com a perda do seu próprio protagonismo. Perda de toda uma esquerda fordista que funciona hoje como a “vanguarda da retaguarda” mais conservadora até que muitas dinâmicas do próprio mercado!
Entre os problemas mais gritantes destaco:
1.O texto não consegue configurar que os movimentos e articulações, ainda que incipientes, das marchas das liberdades em todo Brasil não são “a nova classe dominante”, mas a emergência de um movimento transversal, “movimento de movimentos”, com dinâmica própria e singular em cada território, com uma pauta heterogênea, aberta e em construção, sem “central única” ou “comando” dos “iluminados”, que se auto-organiza e cujos “fins” não foram dados a priori!
2. Não se trata de uma “nova classe média liberal”, nem “nova classe dominante”, “despolitizada”, mas de um arranjo transversal que junta e agrega o chamado precariado urbano, a nova força de transformação no capitalismo contemporâneo.
3. Ou seja, movimentos como os das marchas (e tantos outros) ou o Circuito Fora do Eixo são a base de um novo ativismo contemporâneo, a da emergência do precariado cognitivo, ou cultural, ou seja, da explosão e da percepção que o sistema trabalhista fordista e previdenciário clássicos não dão mais contas da dinâmica de ocupações ‘livres’ (mesmo que frágeis e sem segurança) no capitalismo da informação. E que essa precariedade e autonomia não significa apenas “vitimizar” e “assujeitar” é uma potência para novos arranjos, alianças e lutas.
4. O Circuito Fora do Eixo é, no meu entender, um dos mais potentes laboratórios de experimentações das novas dinâmicas do trabalho e das subjetividades. Que tem como base: autonomia, liberdade e um novo “comunismo” (construção de Comum, comunidade, caixas coletivos, moedas coletivas, redes integradas, economia viva e mercados solidários).
Estão FORA do eixo/fetiche da esquerda por trabalhadores assujeitados na relação patrão/empregado! Mas tem enorme potência para articularem não apenas a classe média urbana, mas se articularem com os pobres e precários das periferias e favelas, ao se conectarem com outras redes como a da CUFA e outras, que junta os jovens negros e pobres para outras marchas como a do Direito a Moradia, em preparação. Além de outras articulações sem medo de “aparelhamentos” seja das corporações, dos partidos, ou do Estado. Sem demonizar as relações com os mercados, mas inventando e pautando, “criando” outros mercados, fora da lógica fordista do assujeitamento.
5. Ou seja, o Fora do Eixo entendeu que o modelo na produção cultural é o modelo de funcionamento do próprio capitalismo.
Não mais o capitalismo fordista da “carteira assinada” mas o dos zilhões de free-lancers, autônomos, diplomados sem empregos, sub-empregados, camelôs, favelados, contratados temporários, designes, artistas, atores, técnicos, que ou “vendem” sua força livre de trabalho com atividades flutuantes temporárias, ou se ORGANIZAM e INVENTAM o próprio emprego/ocupação e novos circuitos, como tem feito de forma incrivelmente bem sucedida o Circuito Fora do Eixo, resignificando e potencializando o imaginário de jovens no Brasil inteiro.
Uma esquerda pós-fordista que está dando certo, que inventa estratégias de Mídia, que inventa “mercados” solidários, contrariando os anunciadores do apocalipse.
6. A ideia de que, para se ter “direitos”, é preciso se “assujeitar” em uma relação de patrão/empregado, de “assalariamento”, é uma ideia francamente conservadora. O precariado cognitivo, os jovens precários das economias da cultura estão reinventando as relações de trabalho; os desafios são enormes, a economia pós-Google não é fordista, não é melhor nem pior que as velhas corporações, mas abre para outras dinâmicas e estratégias de luta, EM DISPUTA!
Não vamos combater as novas assimetrias e desigualdades com discursos e instrumentos da revolução industrial!!! Como faz o texto na sua argumentação redutora e tendenciosa.
Não é só o capitalismo financeiro que funciona em fluxo e em rede, veloz e dinâmico. As novas lutas e resistências passam por essas mesmas estratégias.
O Fora do Eixo está apontando para as novas formas de lutas, novas estratégias e ferramentas, que inclui inclusive PAUTAR AS POLITICA PUBLICAS, PAUTAR o Parlamento, PAUTAR A MIDIA, Pautar a Globo, como as marchas conseguiram fazer! Ser bem sucedido ai, onde muitos fracassaram, é o que parece imperdoável!
Há um enorme ressentimento no texto, mal disfarçado, diante de tanta potência, lida pela chave mesquinha da “luta por poder”, “captalização de prestígio”, da “nova classe dominante”. O objetivo infelizmente parece ser o de desqualificar, rotular e “neutralizar” os que são os novos aliados de uma radicalização do processo democrático no Brasil, que estão inovando na linguagem e nas estratégias. “Perigo” que ameaça a jovem/velha esquerda, que perde protagonismo em todas as esferas, incapaz de dialogar com esse novo e complexo cenário, com todos os seus riscos. Experimentar = se expor aos riscos.
7. Como dizem os ativistas italianos: “Odeia a Mídia? Torne-se Mídia”. A velha esquerda foi incapaz de fazer frente as velhas corporações, perdeu para a mídia de massas, conseguiu pautar algumas politicas públicas, mas está francamente perdida no capitalismo dos fluxos e das redes. Não sabe como resistir, nem inovar, nem experimentar, nem ousar. Está tristemente na retaguarda do próprio mercado!!!
8. O artigo parece ter como horizonte a luta por cartórios do século XIX!!! Com estratégias e palavras de ordem abstratas, um “anticapitalismo” vago que perdeu o sentido. Pois as novas lutas são em FLUXO, são modulações, não são MOLDES PRE-FABRICADOS, não são sequer anti-capitalistas, no sentido estrito, pois estão hackeando o capitalismo, se apropriando de suas estratégias para resignificar o COMUNISMO das redes, no sentido mais radical de um comunismo DENTRO do próprio capitalismo, esquizofrenia do sistema que produz hoje um horizonte do COMUM, que temos que construir e pelo que temos que lutar.
9. É preciso dizer ainda que “não existe UM outro mundo”, não existe “fora do capitalismo” (como diz Guattari e Negri) só existe esse mundo aqui, em processo, mutante, imanência radical, e é deste mundo aqui (um rio que vem de longe…) que iremos inventar outros tantos mundos, no plural.
10. O Fora do Eixo, nas suas práticas de criação de comum e comunidades (que o texto detecta mas distorce) e politização do cotidiano, não é o “inimigo” a combater, estão forjando as novas armas para os movimentos em fluxo, então criando redes, fazendo midiativismo, estão relendo e re-inventando, de forma empírica e genial, dinâmicas e processos decisivos dos embates políticos: situacionismo, Maio de 68, experiências de Seatle, hackerativismo, cultura livre, estão na deriva e na luta. A “geração em rede” não mascara nenhum tipo de “conteúdo político oculto e perigoso” que precisa ser desmascarado, ela é o novo conteúdo e linguagem política, ela encarna as novas lutas e está inventando futuros alternativos. (IB)


Citando o fundador da Creative Commons, Lawrence Lessig :”porém, da mesma forma que um mercado livre é corrompido se sua propriedade se torna feudal, da mesma forma uma cultura livre pode ser deturpada pelo extremismo nos direitos à propriedade que a definem.”
Acho que isso é o coração do texto criticado aqui. Estes projetos coletivos estão se tornando rapidamente instituições convencionais e verticalizadas, com instruções de baixo para cima, reproduzindo velhas formas de organização (o velho centralismo democrático, por exemplo) e o modus operandi do próprio capitalismo, e não com o objetivo de transformá-lo. Isso não tem nada de novo.
Minha admiração para quem consegue tanta clareza nestas ciscunstancias. Atesto e dou fé.
Ou seja, mais pessoas querem pegar essa porção de verdinhas flutuando na internet.
EU TAMBÉM QUERO A MINHA PARTE DESTA GRANA!
A única coisa que as impede é a educação.
Sabem que é o representante máximo dessa geração pós-rancor? O cara que deixou o passado para trás e perdoou os inimigos, ganhando até prêmio de pacificador? Barack Obama
A autora não se deu ao trabalho de ler o “Quem somos” do site. Ou fingiu que não leu e para caricaturar mais facilmente juntou o Passa Palavra com o restante da esquerda. Cognitariado, precariado cognitivo. Fico cada vez mais surpreso com a quantidade de nomes novos que essa turma inventa. De qualquer forma está exposta nesta resposta — e de forma muito clara — a concepção gestorial desse grupo. Gestores do tal precariado. “Fudidos sem carteira de trabalho de todo o Brasil, sujeitai-vos ao nosso jugo pós-pós-pós!”.
Acho que o fato de o texto do passapalavra não trazer nada de novo, e mesmo assim as coisas continuarem como estão, é justamente o problema a ser destacado. Quantos movimentos bem intencionados não se perderam, e as derrotas se tornaram dolorosas fazes de desagregação de todo os indignados. Se isto já ocorre quanto estão bem intencionados, imagine só o que não há de ocorrer com os que não estão tão bem intencionados assim…. Apesar de muita gente ir na onda, ou talvez estes mesmo que se deixam levar pela onda, são também os mesmo que à frente irão dizer “ah, é sempre assim” ou “é assim mesmo…”, claro que não deve ser assim mesmo, e é neste sentido que o texto do pessoal lá do passa tenta atuar… Se não é novo, porquê maldição tentam vocês insistir no mesmo erro? Digo isto apesar de compreender a dimensão das novas roupagens com que se revestem…. Mas a forma é diferente do conteúdo.
Lí os dois textos e estou ainda eletrizado com a qualidade e substância da resposta que você dá ao ataque desferido pelos arautos do velho, claudicante e desnorteado esquerdismo que ainda anda de maria fumaça e nem se ligou que já há um trem bala circulando na linha. Você colocou em palavras boa parte do que eu já intuia. Até por isso, o seu artigo me deu um chacoalhão. Trabalho com as organizações sindicais de trabalhadores, a turma do assujeitamento, e não pude evitar ficar perturbado com a visão do precariado cognitivo assumindo preponderância na criação de novos espaços políticos e sociais. Se antes já acreditava importante o movimento sindical despertar para a necessidade de interação com este diversificado universo do precariado, agora tenho certeza de que isso é fundamental e inadiável.
Algumas questões que me parecem pertinentes:
A esquerda radical ao qual o Passa Palavra defende de nenhuma forma propôs o retorno do capitalismo fordista, pelo contrário, muitos de seus autores são ativistas que propõem a autogestão, autonomia em relação ao mercado e Estado, são ativistas de redes anticapitalistas e movimentos sociais de base urbana taxar o texto como proveniente da velha esquerda é fazer uma leitura rasa.
Onde no capitalismo e nas questões relativas apropriação do imaterial Negri cai na ladainha que as outras formas de exploração capital/trabalho deixou de existir no dias de hoje?
Quando fala de outros mundos possíveis recorrendo máxima zapatista, por favor não traduza a luta dos chiapanecos em guerrilha virtual, para ser o que é hoje foi necessário a apropriação dos velhos meios de produção, o conceito de pluralidade não é o conceito liberal de pluralidade democrática, mas pluralidade de táticas para romper com o capitalismo.
O velho travestido de novo (Brech) pode vir de várias maneiras a mais conhecida é apresentar os gestores sejam eles sindicalistas, ongueiros ou lideranças centralistas no movimento social com algo além de gestores.
“Precariado”?! Basta estar presente nesses atos ou mesmo observar de longe para ver que de precário lá não havia mais que o discurso… Desculpe-me a autora que, em seu argumento, para mim, escreve muito mas diz pouco. E reforça a posição “apolítica” de que o PP acusa o FdE; um discurso que, cheio de modernidade, não parece buscar a promoção da luta social e da transformação, de fato, das estruturas de poder da sociedade contemporânea, mas se integrar, alternativamente, a ela. Outra coisa: creio que a autora poderia ter lido o “Quem somos” do site do PP, para ver que, ainda que no campo da esquerda classista e combativa, o portal tem uma posição que difere diametralmente da esquerda marxista ortodoxa com a qual ela faz aproximações errôneas. Enfim, por ora, ainda fico com a posição do PP.
Ainda sobre a apropriação capitalista web 2.0, a crítica do PP palavra porque muito dela é muito parecida com do Encontro Cultura Livre e Capitalismo, em São Paulo no ano de 2007, também vem sendo constantemente sendo publicada e outros sites de esquerda radical a idéia de grupos que recebem altos financiamentos estatais venham posar de autônomos e independentes.
Fora a velha história do dinheiro é pouco meu pirão primeiro que se transformou os encontros do pontos de cultura, mas sabe qual a coisa que me deixa mais irritado é que maluco acostumado a cocktel do MinC se compara a um ativista fudido que vende as calças para não recebe grana do governo.
Caros, aproveito para enviar esse texto do Sandro Fornazari que deixa claro que as marchas da liberdade, os Pontos de Cultura, o ativismo dos coletivos estão muito mais próximas da proposição (que vem com o Maio de 68!!!) da emergência das diferenças e minorias (negros, feministas, periferias, homossexuais, etc.) do que do limitado conceito de “lutas de classes”.
Filosofia prática
Uma das noções norteadoras do pensamento político de Deleuze e Guattari é a de que uma filosofia política que se preze, hoje, deve estar centrada na análise do capitalismo e de seus desenvolvimentos. O interesse por Marx, por parte dos autores de O anti-Édipo e Mil platôs, é a análise do capitalismo como sistema imanente que se reproduz sempre em escala crescente, incorporando inclusive as forças produtivas que se constituem, originalmente, à sua margem e, no mais das vezes, em resistência a ele. Se essa análise, contudo, desloca a si mesma em relação ao debate marxista, é porque soube criar novos conceitos para pensar a singularidade da experiência política da Europa pós-68.
Entre eles, o conceito de linha de fuga (ao invés de contradição) para explicitar os movimentos constitutivos de cada sociedade para além dos regimes jurídicos e institucionais que visam a uniformização e o regramento da vida social.
Além disso, o conceito de classe dá lugar ao de minoria, que não se define pelo número, pois ela pode ser mais numerosa que uma maioria. A maioria se apresenta como um modelo que procura se impor como norma, enquanto a minoria é antes um processo que uma adequação ao mesmo (modelo); a minoria é um devir-outro, uma ruptura com o mesmo e uma abertura para o novo enquanto processo de criação.
Nesse sentido, pode-se perguntar se o Brasil contemporâneo não vive um processo de esfacelamento dos modelos majoritários (o homem branco morador dos bairros não-periféricos das grandes cidades do Sul-Sudeste) e por um intenso e múltiplo devir-minoritário: devir-negro, devir-mestiço, devir-mulher, devir-homossexual, devir-nordestino, devir-índio, devir-periferia, que vale para cada brasileiro que se vê arrastado por esses caminhos de criação, que é também o caminho de criação de si como outro.
O debate político que se propõe se define a partir de uma filosofia prática e passa pela produção de sentido, antes que pela decifração do real. Decifrar o real é encontrar o sentido como dado a priori que já comporta em si um esquema de valores estabelecidos que justifica o real tal como ele é, levando a esquivar-se diante da miséria, resignar-se diante do intolerável. O que se propõe é um pensamento que, na apreensão mesma do intolerável, responda enfaticamente através da produção de novos sentidos e valores, numa prática que renuncie a toda política de compromisso com os valores vigentes que resultam na imensa fabricação da miséria humana, material e espiritual. (…) Assim, o pensamento se afirma enquanto prática imanente decorrente das forças da experiência vivida em sua singularidade: não há filosofia que não seja filosofia política. (Sandro Kobol Fornazari)
Bem, o que dizer…. nem tanto ao céu nem tanto a terra….
Concordo com algumas coisas que a Ivana fala, concordo que a lente da esquerda tradicional em dicotomizar tudo se tornou obsoleta…. acredito que certas dimensões táticas de transformação podem ser pensadas e experimentadas,sem dogmas….
O problema eh tentar resumir isso a um modelo, e dar a esse modelo uma representação UNIVERSAL, aonde o Claudio Prado comete o mesmo erro do seculo XIX, ao tentar definir a famigerada ‘geração pós-rancor’ como novo modelo. Ora, pos-rancor, de CU,é rola.Como não ter rancor diante de tantas barbaridades cometidas contra a vida humana, com a expropriação do tempo da pessoas de forma cada vez mais violenta.
TEMOS EH QUE ASSUMIR NOSSO RANCOR!!! RANCOR é muito diferente de ressentimento. Temos eh que tornar esse rancor produtivo, torna-lo movimento, articulando diferentes setores da sociedade…. como a marcha poderia ter feito mais nao o fez….porque a marcha nao podia ser contra nada….uhhhhhh….. somos a favor de tudo, tudo lindo…..copacabana mon amour…. ISSO ESTA FORA DA REALIDADE DA MAIORIA DOS BRASILEIROS. Temos que ser contra muita coisa sim, ter rancor de pagar uma passagem cara pra ser tratado como gado. ter rancor de tomar tapa na cara de policial, ter rancor de um estado que sempre beneficia grandes empresarios em prejuizo da populacao,como no caso de Belo Monte…..
COMO ASSIM PATROCINIO DA COCA-COLA mano? vcs tavam de sacanagem, querendo desarticular ou o que? PQ é muita falta de senso de ridiculo. VCS nao reconhecem como a grande s corporacoes prejudicam e expropriam a vidadas pessoas, da natureza, da vida em geral?
Em suma, eu nao tenho nada contra o Fora do Eixo, e ateh ontem achava a experiencia deles bem interessante. Nesse sentido concordo em parte com a Ivana…..
Mas discordo profundamente dela, no mesmo ponto em que o Claudio Prado peca, ao tentar universalizar eles como representantes da nova geração de ativistinhas globais… E nesse processo o FDE parece ter mudado de foco da sua atuação e busca se tornar o porta-voz de algo, contraditorialmente ao seu discurso de horizontalidade e redes…. como entender que a nova super sede do Fora do EIXO seja em SAO PAULO???????????? Fora do Eixo???
Em suma, acho que nao eh pra demonizar as experiencias de cultura digital, redes, nem grupos que buscam se sustentar por editais e outras formas de financiamento. Isso seria o cumulo do dogmatismo idiota. A questao eh se na pratica eles estao transformando sua realidade local….
O problema é a tentativa de UNIVERSALIZAÇÃO de um discurso e a tentativa de uma institucionalização de um porta-voz com uma visão bastante equivocada do mundo. Isso desarticulou o que poderia ser um ato muito potente, unindo periferia e centro, em um ato sem força nenhuma……….a marcha da liberdade foi um fracasso, desarticulou em rede………………(ah nao, apareceu na globo… ué, sec XX Ivana?)
Não podemos polarizar a discussão, achando que qualquer critica ao FdE seja da “velha esquerda”. Me desculpem, esse papo de pós rancor é lamentável….
Estou co m a Ivana no seguinte sentidi: abram-se para novas experiências! Eu quase estou virando anarquista de tanto ver as cagadas que os partidos políticos estão fazendo. estou com o S. Zizek que diz que deveria ter sorteio pra ver quem ganha eleições pois na Europa os partidos de esquerda aplicaram as políticas de direita. Acho que temos que ficar de olho nas novas mobilizações via rede sociais e as mudanças que jovens, mulheres e quaisquer setores da população que inventam novas formas de mobilização. A disputa principal continua entre esquerda e direita e vamos tentar disputar todos os campos e estar do lado daquelas que dizem não em várias partes do mundo.
Como dizia aquele gênio renascentista: E, no entanto, se move!” Chega de foice e martelo, a nossas ferramentas são imateriais e materiais e os fluxos das redes tem possibilitado aos que lutam por liberdade manifestarem-se: só não sente as amarras aqueles que nãos e mexem, acho que essa é da Rosa de Luxemburgo ou do Brecht, estou ficando velha, mas tenho esperança na mudança social.
ÓTIMA CONTRIBUIÇÃO para o Debate do Pablo Ortellado, do GPOPAI
Capitalismo e cultura livre
PABLO ORTELLADO
Publicado em http://www.gpopai.org/ortellado/2011/06/capitalismo-e-cultura-livre/
A publicação do artigo “A esquerda fora do eixo” e sua repercussão são um fato a ser comemorado por duas razões: por publicizar um debate que estava acontecendo fora do espaço público e por trazer a primeiro plano algumas questões centrais da luta contemporânea. Gostaria de ressaltar o primeiro motivo, em particular, porque ele permite que o debate avance e bloqueia os efeitos nefastos da intriga e da difamação na qual a crítica se converte quando acontece apenas num circuito restrito em ambiente privado. Neste sentido, o Passa Palavra dá continuidade à missão do jornal O Combate com o qual mantém certa filiação histórica.
O que não me parece muito de acordo com essa missão é a recusa em participar de um debate sugerido pelo Fora do Eixo com uma alegação que simplesmente desqualifica o adversário, colocando-o apressadamente e sem lhe dar voz, no campo do empresariado. Tenho sérias dúvidas se o coletivo do Passa Palavra tem elementos para fazer essa qualificação de maneira sustentada.
De todo modo, não gostaria de discutir o coletivo Fora do Eixo, não porque o assunto é sem interesse – muito pelo contrário – mas por que simplesmente tenho poucos elementos para contribuir com o debate e acho que a própria disposição do coletivo em responder é o ponto de partida mais adequado.
O que gostaria de fazer é responder a algumas afirmações e concepções do artigo no que diz respeito à constituição do campo da cultura livre e da relação entre a contracultura e a luta social. Acho que o artigo traz os elementos certos para o debate, mas nem sempre de maneira apropriada. Chamo a atenção para alguns pontos centrais:
Em primeiro lugar, o artigo “A esquerda fora do eixo” sugere que o processo de constituição da cultura livre foi movido pelo empresariado: “A ideologia da cultura livre baseia-se na ideia de que a flexibilização da propriedade intelectual com a concorrência proporcionada pelo livre mercado pode estimular a criação e, nesse processo, democratizar a informação e assim as nações caminharem ao progresso. De fato, quanto maior a flexibilização da propriedade intelectual, maior a produtividade dos trabalhadores e, por isso, maior a produção de riqueza a ser apropriada e transformada em mercadoria. Em síntese, a cultura livre é a própria regra do jogo do capitalismo, a apropriação de algo que a classe capitalista não produz.”
O que essa leitura deixa de levar em conta é precisamente a agência do processo que descreve. A plataforma da cultura livre não foi impulsionada pelas empresas, muito pelo contrário – ela foi e até hoje é fortemente resistida pelo grande capital que opera as chamadas indústrias culturais (do livro, da música e do audiovisual). Quem esteve impulsionando esse processo sempre, desde o começo, foram ativistas, alguns dos quais vindos do campo liberal (no sentido americano do termo) e outros do campo da esquerda, no sentido europeu (no seu espectro mais amplo).
Os ativistas liberais queriam persuadir o empresariado de que havia possibilidades de negócio não exploradas e buscavam conciliar uma “modernização” da indústria cultural com a democratização do acesso à informação, já que haveria queda na barreira de preços dos produtos culturais. Os ativistas da esquerda enfatizavam o processo de desmercantilização da cultura e a constituição de formas coletivas de produção e distribuição da cultura que retomavam, em nova chave, experiências pré-capitalistas dos bens comuns (commons).
O artigo aponta corretamente que houve uma “aliança política tática formada por um programa de oposição às transnacionais da cultura e os oligopólios culturais regionais”, mas está completamente equivocado ao afirmar que se ocultou “a reflexão crítica sobre o que há de surgir em seu lugar.” A discussão sobre as implicações políticas desta aliança anti-velha-indústria e de como lutar para que o processo de transformação em curso se oriente mais para a desmercantilização da cultura e menos para a modernização da indústria por meio de novos modelos de negócio foi o cerne dos debates de toda a esquerda que esteve envolvida no campo da cultura livre.
O artigo também falha ao não ressaltar a agência do processo que foi movido por ativistas, contra uma indústria resistente e recalcitrante. Assim, não pode discutir as implicações teóricas e políticas que são a essência da interpretação autonomista da história de que as transformações estruturais do capitalismo são exógenas, frequentemente vindas da luta social.
O segundo ponto que gostaria de comentar é a leitura classista da luta pela cultura livre. Eu compartilho com o Passa Palavra o diagnóstico geral de que a estrutura de classes da sociedade capitalista fordista foi (e, em certa medida, ainda é) tripartite e não binária.
Ela tinha três classes: uma classe de proprietários cujos rendimentos advinham da rentabilidade da propriedade e que se reproduzia por meio da herança, uma classe de gestores profissionais que comandavam o processo produtivo e se reproduzia por meio do sistema de ensino superior e uma classe de trabalhadores despossuídos de propriedade e competência formal profissional. A distribuição das classes era muito variável de acordo com o papel que cada nação ocupava no sistema capitalista mundial, mas, para simplificar o argumento, tinha a estrutura típica 1:10:90. O elemento chave da organização desta estrutura, além da propriedade privada e do trabalho assalariado, era que a organização fordista separava a concepção da execução do trabalho e limitava o acesso às funções de concepção por meio do monopólio profissional.
No entanto, há evidências muito sólidas e de muitas décadas de que essa estrutura está mudando: nas empresas, consolidam-se práticas de gestão pós-fordistas onde os trabalhadores recebem muitas (mas não todas) atribuições gerenciais e há uma ampliação do acesso ao ensino superior que, em alguns países, caminha para 40% da força de trabalho. Embora inconteste, essas transformações não têm linhas gerais completamente claras, na minha opinião. Algumas questões: qual o impacto das novas ocupações de nível superior para o sistema produtivo?; caminhamos para novos tipos de hierarquia na estrutura produtiva que não é mais determinada pelo acesso escasso às ocupações profissionais? quais?; essa delegação de tarefas gerenciais para os trabalhadores modificou efetivamente a natureza do trabalho produtivo cuja essência agora seria simbólica, como querem os autonomistas franco-italianos? (lembrando que, mesmo nos Estados Unidos, onde o processo está mais avançado, 60% da força de trabalho ainda manipula produtos e não símbolos e que esse crescimento americano pode ter tido como contrapartida a ampliação do trabalho industrial fordista nos países semi-periféricos); por que certos tipos de trabalho como o de telemarketing, no coração do setor de tecnologia de informação e comunicação, ainda se organizam de maneira fordista? Eu não conheço respostas satisfatórias para essas e outras questões, mas acho que devemos olhar para este mundo que se transforma e não para o mundo fordista que aos poucos desaparece.
Por fim, gostaria de comentar as novas formas de luta que acompanham esse processo de transformação da estrutura de classes. Essas transformações da natureza do trabalho e da estrutura de classes começaram a ser sentidas claramente nos anos 1960 e, na minha opinião, estão claramente ligadas à emergência da contracultura, às novas demandas sociais características destes segmentos e a uma culturalização da luta social que vemos, para pegar casos extremos, no maio francês, nos yippies americanos e nos indiani metropolitani da Itália (no Brasil, por especificidades da conjuntura nacional, não veremos essa intersecção no tropicalismo). A drástica ampliação do ensino superior e a massificação das tecnologias de informação comunicação, “culturalizaram” as “camadas médias urbanas” o que repercutiu na forma de expressão das suas lutas, inclusive quando tiveram orientação anticapitalista.
Nas lutas desses setores urbanos médios, assim, vagamente definidos, a expressão da luta tem uma dimensão cultural ineliminável e as demandas são crescentemente “pós-materiais” para usar um jargão sociológico. Como as lutas destes setores médios – tanto dos emergentes, como os do já consolidados – se articulam com a dos trabalhadores, inclusive com aqueles que ainda vivem no regime fordista, num cenário de rápida transformação é a questão em aberto a ser investigada.
Não sei se a marcha da liberdade que o artigo discute dará frutos, mas o crescimento de mobilizações deste tipo – altamente culturalizadas e com os segmentos médios urbanos – são obviamente uma tendência marcante.
Na verdade, no cenário atual, são a novidade mais distintiva para a qual os antagonistas do sistema capitalista deveriam voltar seus olhos. Por isso, quando texto ironiza a forma e o conteúdo deste tipo de luta (“os elementos da composição dessa nova elite passam pelo consumo e sustentação de novos habitus, como se deslocar para o trabalho de bicicleta ou a pé, reciclar seu lixo, cuidar de pequenas hortas em casa, consumo de orgânicos, baixar músicas e minutar os momentos do dia numa mídia social”), ressaltando a forma das lutas de meados do século passado, ele não ajuda a compreender o presente, nem a discernir as tendências do futuro. Nos anos 1860, Karl Marx viva num mundo predominantemente agrário, cuja maior parte da classe trabalhadora era camponesa. Ele não teorizou sobre a luta no campo, mas sobre o incipiente mundo industrial. Acho que ainda é a atitude adequada a seguir. (Pablo Ortellado)
Algumas referências para o debate a que se faz menção neste artigo:
A esquerda fora do eixo http://passapalavra.info/?p=41221
A Esquerda nos Eixos e o novo ativismo http://www.trezentos.blog.br/?p=6056
Domingo na Marcha (1ª parte)
Mas esses movimentos fora do eixo dependem vitalmente das redes sociais, que, ao mesmo tempo, só existem em função da informâtica, que só respira se o permitem Bill Gates e Steve Job.
Não é uma reedição do século XIX?
Achei interessante esse trecho para colocar algumas colocações:
“Estão FORA do eixo/fetiche da esquerda por trabalhadores assujeitados na relação patrão/empregado! Mas tem enorme potência para articularem não apenas a classe média urbana, mas se articularem com os pobres e precários das periferias e favelas, ao se conectarem com outras redes como a da CUFA e outras, que junta os jovens negros e pobres para outras marchas como a do Direito a Moradia, em preparação. Além de outras articulações sem medo de “aparelhamentos” seja das corporações, dos partidos, ou do Estado. Sem demonizar as relações com os mercados, mas inventando e pautando, “criando” outros mercados, fora da lógica fordista do assujeitamento”.
Em certo sentido me parece que sugere que se submeter a reestruturação e flexibilização é uma opção e não uma condição determinada das próprias transformações no mundo do trabalho que afeta principalmente a juventude, mesmo a esquerda não ortodoxa vem narrando as consequências no cotidiano das pessoas submetidas as relações de trabalho flexível.
Quando se fala em assujeitamento me parece que muitas das relações de trabalho flexível não são assujeitadas e fetichizadas, ao dizer vamos hackear o capitalismo e o Estado, muitos dos jovens ativistas de classe média puderam ganhar a independência financeira ao mesmo foram perdendo sua autonomia tornando-se peças chaves para desenvolvimento de novas formas de exploração e apropriação capitalistas patrocinadas por prêmios e editais do governo.
O patrão governo/MInC/Ong é tão ou mais explorador a diferença é que conseguiu fazer algo que politicamente parecia impossível, fragmentar a reflexão sobre as ações do governo, que se por uma lado promove editais de inclusão digital, por outro deixa inalterada a estrutura monopolizada da comunicação de massa, cria espaços de discussão para ouvir a sociedade civil, mas no primeiro sinal de desagrado dos setores conservadores dentro das instituições publicas privadas descarta tudo que foi debatido e proposto nos fóruns.
Quando fala de Medo de aparelhamento parece que esquece os desdobramentos das lutas sociais, a manutenção de velhas estruturas centralistas e clientelistas nos partidos políticos e o quão são anti-democráticos muitas vezes esses sujeitos em relação aos movimentos e comunidades em luta, não é por medo, é por coragem de buscar na sua atuação junto aos movimentos sociais urbanos laços de solidariedade para construção de projetos populares que possam trazer de volta as esferas de decisão hoje colonizadas quase que exclusivamente pelos interesses de mercado que muitos ativistas não se filiam a projetos patrocinados pelo governo.
(volto depois para questionar o ditos mercados alternativos não fordistas)
Publicado no ANTITEXTOS:
A minha análise, bem simples é verdade, conclui que Ivana Bentes acerta, confirmando seu profundo e amplo conhecimento sobre os temas em pauta, em todos os argumentos aos quais recorre para oferecer um panorama conceitual dos atuais processos sócio-políticos e culturais, que se baseiam e se alimentam de movimentos transversais e heterogêneos. Mas erra ao aplicar todos esses argumentos também às ações e escopos do Coletivo Fora do Eixo, como se o Coletivo fosse um exemplo suficiente desses novos processos.
Eu creio que o Fora do Eixo ocupa um lugar importante no cenário cultural e sobretudo no mercado criativo do Brasil de agora, mas essa defesa entusiasmada de Ivana Bentes falha ao corroborar o artigo do Passa Palavra ao mesmo tempo em que quer negá-lo: afinal, acaba por centralizar e personificar todos os potenciais dos movimentos livres no modelo de atuação do Fora do Eixo, tornando-o protagonista de um processo em que ele é apenas coadjuvante! O afã de defender as estimulantes e múltiplas possibilidades de um novo capitalismo acabou por resultar numa defesa desnecessária e sobretudo superestimada do Coletivo Fora do Eixo!
Vejo com clareza que o Coletivo Fora do Eixo não é de esquerda nem de direita, mas uma rede de entidades (inclusive empresariais) que realiza e participa de ações que mantêm escopos relacionados ao mercado da cultura e acabam por percorrer esferas diversas da participação política, seja colaborando com o Governo na elaboração dos editais em que eles mesmos concorrem, seja centralizando a articulação de movimentos livres, de classes médias, com bandeiras ativistas amplas (ainda que resumidas na ideia central de Liberdade).
Romantizar o Coletivo Fora do Eixo também não é caminho pertinente. Se Pablo Capilé queria o patrocínio da Coca-Cola para realizar a marcha da Liberdade, eu não vejo motivo para discussão (embora eu considere isso lastimável: o patrocínio não aconteceu, mas cogitá-lo revela algo…). Mas para quem acompanha minimamente as ações do coletivo no que se refere às articulações ativistas nas redes, fica patente a posição hierárquica de liderança assumida por Pablo Capilé, demonstrando, pelo menos na dimensão prática, uma estrutura hierárquica bem definida (e legítima, sem dúvida). Logo, o Coletivo constitui um exemplo de inovação e de exploração de novas potencialidades de mercado cultural dentro do sistema, mas não vai muito além disso – muito menos alcança um patamar de vetor político dos jovens que usam Twitter e Facebook.
Por fim, acho que o artigo do Passa Palavra não merece a desqualificação conjuntural que Ivana Bentes tentou justificar apontando, inclusive, a falta de um arsenal teórico e afirmando que o artigo reflete medo e ressentimento de uma esquerda ultrapassada diante das mudanças estruturais. Ressentimento, sinceramente, percebi em ambos os artigos (cada um a sua maneira e por razões diversas), mas o artigo do Passa Palavra traz sim reflexões pertinentes que exigiriam não uma refutação apressada, mas sim um debate mais cauteloso.
Por exemplo:
As Marchas da Liberdade trazem em si – para além do seus significantes simbólicos – um efetivo poder de transformação política e social das atuais estruturas de poder? Claro que a marcha e as suas dinâmicas de articulação (que envolvem diretamente ferramentas da web) contribui para, quem sabe, o fortalecimento de novos processos de participação – mas não acho justo argumentar que as classes médias conectadas, interessadas em consolidar estilos de vida consumistas/sustentáveis – sem objetivar uma mudança estrutural nos modelos de produção hegemônicos – são o novo vetor da ação política verdadeiramente transformadora. (Ivana Bentes até argumenta que esse modelo de organização da Marcha da Liberdade pode vir a envolver “os pobres e precários das periferias e favelas” – esse argumento merecia mais do que uma linha!
).
O Coletivo Fora do Eixo é mesmo o melhor emblema desses novos movimentos e possibilidades que estão surgindo dentro do capitalismo chamado cognitivo? O Coletivo tem como base a autonomia, liberdade e um novo “comunismo”, como afirmou Ivana Bentes? (e o fez, aliás, num trecho de sua resposta que é obscuro e cheio de talvezes, que é o item 4 dos problemas que a autora enumera).
Há, na abordagem de Ivana Bentes, contradições importantes dos movimentos em questão que foram ignoradas. O objetivo deste pequeno texto, portanto, é unicamente ampliar o debate para que os movimentos livres nascentes cresçam em potência e em alcance e, sobretudo, consigam o êxito de se inserirem, com algum grau de efetividade, nos reais processos de transformação social que são, pensando nas novas tendências, autenticamente autônomos, independentes e inevitáveis!
por fabricio kc
Não se preocupe, não, Ivana Bentes.
Isso passará.
Esse seu ativismo pós-moderno e imaturo. Isso também passará!
Esse “um novo ativismo contemporâneo”. Isso também passará!
Firulas. Modismos. Porraloquice requentada.
Se você fosse da minha idade eu diria que você é uma hippie de butique. Mas isso também passará.
Um koan pra você se deliciar.
ISSO TAMBÉM PASSARÁ
Um praticante foi até o seu professor de meditação, tristemente, e disse:
“Minha prática de meditação é horrível! Ou eu fico distraído, ou minhas pernas doem muito, ou eu constantemente fico com sono. É simplesmente horrível!!!!”
“Isso passará,” o professor disse suavemente.
Uma semana depois, o estudante retornou ao seu professor, eufórico:
“Minha prática de meditação é maravilhosa! Eu sinto-me tão consciente, tão pacífico, tão relaxado, tão vivo! É simplesmente maravilhoso!!!!!”
O mestre disse tranqüilamente: “Isso também passará.”
Márcio Tadeu
“Maio de 68″ ?!?!?!?!?!?!?
hahahahahahha
tá de brincadeira, né…..
maio de 68 é a pior das memórias que precisamos agora, sai do meu colo que tá pesado!
E as propagandas estão repletas
E a parte da esquerda
É agora parte da direita
E as barbas tornaram-se grandes de repente
Sorrindo sem graça pelas mudanças em minha volta
…Exatamente como ontem
Ai me ajoelho e rezo
Yeaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!
Conheça o novo chefe
Igualzinho o velho chefe
Gostei deste comentário abaixo num primeiro debate ao Vivo do Fora do Eixo na internet. O pessoal do Passa Palavra “se recusa a participar de debate com projetos “anticapitalistas” !!! (risos). O que dá bem o tom do dogmatismo e da vontade de ficar falando dentro de um grupelho fechado, entre eles, os puros, dessa curiosa Igreja Dogmatica do Apocalipse!!! O ideologo do Passa Palavra , joão Bernardo (portugues), é um sujeito (tive que ir ao Google pois nunca ouvi falar) que lançou a teoria dos gestores e aplicam isso de forma automatica (tipo manualzino e cartilha) aos mais variados fenomenos e movimentos. Saem colando a etiqueta!!! So existem ELES os puros revolucionarios e o “resto”, com quem nao dialogam para nao se contaminarem.
Os Passa Palavras mesmo sao uma especie de novos gestores das ruinas do dogmatismo. Vao gerir uma massa falida, he he he! Enquanto todos os demais movimentos discutem entre si, fazem aliancas, debatem e vão das redes as ruas e vice-versa eles continuarao no conforto da sua seita, tomando o chazinho das Cinco entre eles e julgando o mundo.
Uma juventude que ja nasceu VELHA!
Viva o não-dogmatismo e a inteligencia! Esse artigo da Ivana Bentes eh um dos mais lucidos que ja li sobre a crise da Esquerda, calou fundo!
Jorge Iuri
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André Azevedo da Fonseca 25/06/11 17:21 escreveu:
A coisa está pegando fogo, hein!?
Fiquei muito tentado a entrar da discussão, mas preferi me conter para analisar mais e continuar estudando.
Aqui entre nós, vejo que há excesso de má vontade no artigo do PassaPalavra. Não sou desses paranóicos que adoram teorias conspiratórias, mas o texto quase parece uma retaliação. Talvez, para desqualificar o Fora do Eixo e, portanto, desqualificar os modelos que vocês estão propondo ou, quem sabe, as críticas que fazem ao novo MinC.
O texto se apropria da estética de um artigo acadêmico para sugerir respeitabilidade (tem referências bibliográficas, divisão em sub-capítulos), mas a primeira acusação (de que o FDE está enraizado nos aparelhos do Estado) vem de “um entrevistado” não identificado. Ou seja, uma opinião decisiva vinda de uma fonte totalmente anônima. Quem disse isso? De onde a pessoa diz? Quais os seus propósitos? Não sabemos. Portanto, podemos questionar: Qual a validade de uma opinião anônima? Isso demonstra o caráter panfletário, e não analítico, do texto.
Há um equívoco quando associam a criação do Partido da Cultura ao combate á Ana de Hollanda, pois o PCult é anterior. Seria mais correto associá-lo ao clima de mobilização estimulado pelas conferências de cultura. (O que acha Capilé?) É interessante notar que o texto interpreta esse diálogo entre governo Luls e sociedade civil de forma pejorativa, entendendo a dinâmica como uma mera “pacificação dos movimentos sociais”.
É perceptível também que o texto se prende às noções tradicionais da política e da disputa por poder em instâncias partidárias, além de estar ainda refém das dicotomias ideológicas do século XX (“esquerda?” “liberal?”).
É visível que os autores ignoram a discussão sobre culturas híbridas de Canclini (as culturas “populares” são ressignificadas e se relacionam com o mercado com mais naturalidade do que o purismo dos folcloristas gostaria de ver em suas idealizações ) e Martin- Barbero (que mostra as tramas de cumplicidade entre discursos hegemônicos e subalternos e critica o esquematismo dos frankfurtianos, inadequados para as realidades da América Latina). E mesmo Maffesoli, que ao contrário de Bourdieu (que também é ótimo. Eu usei muito em minha tese), evidencia a importância do componente lúdico e mítico nas novas configurações políticas expressas pelas tribos urbanas. (O FDE tem algumas características da tribo maffesoliana, mas tampouco se enquadra por completo no conceito.)
Ao afirmar que o FDE passou a “buscar meios para chegar na política” o texto mostra não perceber que o FDE já está fazendo política no campo da cultura, do comportamento, do cotidiano, estabelecendo vínculos transversais entre cultura, política e mercado. Mostra que os autores do texto estão presos à visão tradicional, ainda em voga (e mais: perfeitamente legítima, por que não?! ) encontrada nos projetos políticos pessoais de parte significativa de ativistas desta mesma geração, porém partidários de outras organizações, tais como a UNE, a UJS, o Rotaract, o LEO, etc. E o curioso é que isso (a perspectiva cultural da política do cotidiano) nem é propriamente uma novidade do século 21. (Lembro-me de ter ouvido isso muito nos encontros do SOMA com Roberto Freire nos anos 1990.)
É injusto também sugerir que o combate à Ana de Hollanda estaria ligado a uma suposta dificuldade de obter recursos do Ministério da Cultura. Um dos pontos interessantes da sustentabilidade dos FDE é precisamente a competência que eles desenvolvem para elaborar projetos e captar recursos nas mais diversas fontes de financiamento público, privado , do terceiro setor e, recentemente, por financiamento coletivo. Ora, falar que o FDE garante a “exclusividade na apropriação dos recursos” com uma Lei Rouanet que autoriza a Disney Ice captar 5 milhões é muita má vontade.
Se os autores tivessem mesmo a vontade de compreender, ora, teriam entrevistado alguns membros. Acusar o Fora do Eixo de agir “sem a menor preocupação ideológica” é desconhecimento. André
Azevedo da Fonseca 25/06/11 17:21
Inadequação da Escola de Frankfurt? Bem acho que não seria o caso discutir se é pertinente ou não a concepção de industria cultura, mas certamente é pertinente entender como a racionalidade instrumental e a ideologia liberal estão presentes nas políticas públicas no campo da cultura.A um ano atrás um amigo ligado a um ponto de cultura pediu para que escrevesse uma avaliação sobre a produção fonográfica independente em SC pensando os desdobramentos das políticas publicas dos últimos anos…. esse é um trecho derivado da discussão.
O Estado nos últimos anos injetou uma considerável gorjeta nos programas de incentivo a cultura, se considerarmos o montante repassado para salvar bancos e empresas que investiram em capital de risco.
Apesar de o dinheiro ser muito bem vindo e, que as leis de incentivo a cultura proporcionaram um crescimento significativo não só na produção fonográfica, não podemos esquecer que um meios mais eficazes de aniquilar a vontade política em prol de uma universalização dos direitos é focalizar os investimentos em pequenos e numerosos grupos que competem entre si.
Os grupos param de exigir que haja um investimento global por meio de políticas públicas universalizantes que atendam os interesses e necessidades de todos e todas. Passando a reproduzir uma visão corporativa, uma espécie de braço político que justifica programas focalizados às suas necessidades e não a universalização dos direitos, sob um olhar democrático de política pública.
A lógica regressiva do Estado passa a operar impondo na base da rede social a competição, unindo os grupos e produtores ligados a música independente apenas quando a questão é distribuição de recursos provenientes da arrecadação dos impostos, produto do absurdo número de impostos e tributos pagos por milhares de trabalhadores e trabalhadoras que na maioria das vezes é o maior mecenas. E muitas vezes, nem chega a ter ao menos um contato com o produto do investimento de dinheiro público.
Apesar de não eliminamos a possibilidade de arrecadação por meios de editais e prêmios, já que pragmaticamente é o que temos, a nossa posição é que a sustentabilidade da produção fonográfica deve provir em primeiro lugar de redes sociais colaborativas de todos e todas envolvidos no processo (produtores, músicos, apreciadores, pesquisadores) ao mesmo tempo, que buscamos com autonomia em relação ao Estado, propor políticas públicas universalizantes.
Apenas em pé de igualdade de forças que podemos fazer que o Estado, independente de sua composição partidária, opere em direção da retomada da esfera pública e não guiado pela imposição das regras e interesses de um mercado que na ponta só visa o beneficio das elites nacionais e transnacionais.
A desconexão de uma visão global das políticas de Estado, de entidades conveniadas às leis de incentivo com outros setores da sociedade também fazem parte desse processo regressivo. Salvo alguns grupos culturais, produtores, bandas e músicos, quem tem um olhar apurado dos problemas relacionados à população de baixa renda, povos tradicionais e indígenas, educação saúde e etc. aliam produção fonográfica a outras lutas por direitos políticos e sociais. Muitos grupos ligados a produção fonográfica, principalmente no sul do país, tem se calado diante dos descaminhos do governo.
Não é difícil compreender que as políticas econômicas e ligadas à democratização da comunicação afetam diretamente a produção fonográfica, o Jaba, por exemplo, é produto da relação direta do Estado com os proprietários dos meios de comunicação onde a moeda de troca corrente são as concessões de radiodifusão, no caso, não adianta responsabilizar apenas um sujeito por essa prática.
O silencio e passividade diante das injustiças e descaminhos dessa relação promiscua entre Estado, classe política e empresários têm consequências sérias, como a onda de criminalização das rádios comunitárias, a escolha do sistema do sistema TV digital que barrou a possibilidade de democratização da mídia no Brasil e entregou as concessões para os mesmo coronéis-eletrônicos que detém o monopólio das comunicações no país.
Outro fato comum na produção fonográfica bancada pelo Estado é o mau uso dos recursos (dinheiro Público) provindo dos editais e prêmios, não estamos falando de desvios ou outras formas de peculato conhecido por todos e todas, estamos falando dos que usam o dinheiro público para produzir obras de autorreferencia que nunca são distribuídas e servem apenas para conferir um currículo para quem vive do circulo vicioso dos editais e prêmios.
Esse tipo de prática que está se tornando cada vez mais rotineira, fugindo do maniqueísmo político, tem sido tão prejudicial à música independente quanto os descaminhos e falta de visão política de nossos governantes.
“Com estratégias e palavras de ordem abstratas, um “anticapitalismo” vago que perdeu o sentido. Pois as novas lutas são em FLUXO, são modulações, não são MOLDES PRE-FABRICADOS, não são sequer anti-capitalistas, no sentido estrito, pois estão hackeando o capitalismo, se apropriando de suas estratégias para resignificar o COMUNISMO das redes, no sentido mais radical de um comunismo DENTRO do próprio capitalismo, esquizofrenia do sistema que produz hoje um horizonte do COMUM, que temos que construir e pelo que temos que lutar.”
Eu acho interessante esse COMUNISMO das redes. Tanto mais virtual, quanto monopolizado. Me diga quem fabrica os computadores, quem comanda o acesso e o grosso das informações na internet???? A, outra coisa, quantos são os humanos com acesso e dominio das ferramentas de rede??? (a população afegã está bem integrada nesse COMUNISMO das redes?? O Haiti é um grande beneficiado desse??????) Ou esse COMUNISMO das redes está modificando a produção de alimentos, garantindo moradias e saúde para a população miserável do planeta????
Enxergar a insuficiência do COMUNISMO das redes é justamente o contrário de dar a esses novos instrumentos de luta o status de novidade que não pode ser compreendida pela “velha esquerda”. Terminando, qualquer comunismo sempre sairá de dentro do capitalismo.
E terminando mais uma vez. O capitalismo é esquizofrênico quando pode ser. as novas estratégias de gestão sempre foram vistas (geralmente pelos mais conservadores e alguns de boa-fé) como rupturas, pois atacam, por dentro mesmo, outras estruturas do sistema, no entanto a história provou ser apenas mais do mesmo. O horizonte COMUM o capitalismo sempre produziu e continuará a produzir, a exploração e a crescente esquizofrenia humana, ou será que podemos praticar e pensar outro mundo? Pelo jeito a divergencia é grande, mas o futuro pode confirmar quem acertou.
Muito boa a análise abaixo, do Henrique Parra e Gavin Adam, das questões que se desdobram do debate inicial. Compartilho cada uma delas. Trata-se ao mesmo tempo do esgotamento de modelos e teorias, mutações de contexto e novas configurações e a necessidade de apontar os impasses e estratégias politicas, com seus limirtes. Falei do Fora do Eixo no meu breve artigo pois estava em xeque, e devemos conhecer e analisar atentamente suas dinâmicas, assim como a de tantos outros movimentos, coletivos , Pontos de Cultura, Ongs, etc. Só essa análise detida das dinâmicas poderá trazer dados materiais que nos tirem da comodidade das generalizações.
Execelente desdobramento do debate e dos conceitos trazidos:
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Nem eixo nem seixo [no Trezentos: http://www.trezentos.blog.br/?p=6070
por Henrique Parra e Gavin Adams [2]
Nas últimas semanas e, com maior intensidade logo depois da Marcha da Liberdade (18/06), cresceu um interessante debate em torno das formas de organização social e ação política presentes nessas recentes manifestações. Essas formas de organização ganharam visibilidade aguda no presente debate, mas têm sido desenvolvidas ao longo de vários anos de experimentação militante e sensível. A discussão segue de maneira animada em alguns artigos publicados na Internet. Começamos escrevendo este texto numa troca de emails, mas ele acabou virando este post. Esperamos que contribua para o debate.
Parece-nos que as questões colocadas pelo debate indicam que tanto a reflexão teórica quanto a prática política compartilham um limite comum frente às urgências que têm aflorado no real. Como resultado, na ausência de condições (tanto teóricas como políticas) para que as análises dêem conta da complexidade do problema, as ferramentas analíticas parece que se tornam prisioneiras dos projetos políticos dos sujeitos que estão enunciando e problematizando os “fatos”. Estamos diante de uma fronteira em que as soluções interpretativas apontadas para os problemas empíricos observados são indissociáveis dos pressupostos que pré-configuram o campo político, e que atribuem (de maneira mais ou menos positiva) a agência e o protagonismo político a determinados grupos sociais. Nos debates que estão acontecendo em artigos públicos, listas de discussão e boas conversas de botequim, diferentes argumentos são mobilizados. Neste pequeno comentário, vamos distribuí-los em dois campos, bem representados pelos artigos do Passa Palavra e da Ivana Bentes, apenas para tornar o problema mais visível.
O que primeiro chamou a atenção é que em ambos os casos a análise não pode ser separada de uma vontade/desejo de fazer realizar um certo projeto político, seja a luta de classes em seu porvir revolucionário; seja a multiplicidade sem totalidade de devires de resistência criativa.
Algo está em movimento. A nítida sensação de que algo está a mudar, parece animar o presente debate. Ao esgotamento de tradicionais formas de organização e ação políticas parecem corresponder novas formas de ser e sentir, de trabalhar e morar que não encontram expressão nessas formas tradicionais. Mas, por outro lado, estas transformações parecem se concretizar em configurações específicas de trabalho, de subjetivação, de consumo, de existir e de sentir. A interpretação potencializadora desses fluxos geraria vantagem organizativa que permitiria o crescimento estratégico como que à sombra da velha hegemonia, que carece do instrumental de mesmo apreender o que está em movimento – potencialmente, sua própria destruição, ou pelo menos sua transformação libertária profunda (ou ainda a instrumentalização e aprisionamento das potencialidades para fins de manutenção do capitalismo).
O artigo do Passa Palavra apresenta amplas contribuições para a problematização da atual conjuntura política. Aqui, concentramo-nos em apenas alguns aspectos. Neste artigo, critica-se este conjunto recente de manifestações públicas pois ele não apresenta os componentes esperados de uma ação política potencialmente emancipatória (o que vem a ser essa emancipação já é um problema para a discussão). Denunciam ainda a emergência de mecanismos de exploração econômica e relações de dominação no interior das redes aparentemente horizontais e democráticas (coordenadores, administradores ou produtores como expressão da emergência de uma nova classe gerencial?); e apontam possíveis processos de captura da energia política dessas mobilizações por novos grupos sociais (aparelhamento?). O argumento procede assim: parte-se de uma análise econômica das transformações recentes do capitalismo e se identifica a elas um setor ligado à comunicação. Este setor é composto de gerentes que, compreendendo os novos mecanismos da rede, se interpõem como intermediários entre os trabalho coletivo e sua comercialização. O artigo amplia esta análise para manifestações como a Marcha da Liberdade, julgando-as expressões dessa nova casta de gerentes comunicacionais que agenciam corpos alheios em redes produtivas. No sistema analítico mobilizado pelo Passa Palavra, a forma e a dinâmica do conflito e de seus sujeitos já está dada a priori. A análise não abre mão da economia como gerador de protagonismos socias, e já se sabe qual é a luta relevante a esse tipo de análise e onde se deseja chegar, faltando apenas encontrar ou produzir tais sujeitos (classes populares? novo operariado?) para que a luta aconteça na direção esperada. O texto sugere equivocadamente que o ativismo atual em geral seja a exata expressão do novo capitalismo (open business etc.), ignorando extensa e diversa experiência militante anticapitalista envolvida em formas mais complexas de interação com a produção capitalista [3].
O artigo da Ivana Bentes, por sua vez, critica alguns pressupostos teóricos do artigo do Passa Palavra ao propor que sejam prisioneiros de uma “imagem do pensamento” (para ficarmos no vocabulário deleuziano) que condiciona suas análises, impossibilitando-os de enxergar o novo, suas aberturas e potencialidades. É possível se sentir contemplado pelos diagnósticos agudos proporcionados pelo partido teórico que informa a crítica realizada por Ivana. Porém, temos a impressão que as posições manifestas em seu artigo (são posições teóricas partilhadas por muitos interlocutores) acabam caindo, no âmbito deste debate local, numa armadilha semelhante à que eles querem denunciar.
Deste ponto de vista, o grupo que está no centro das discussões (Fora do Eixo – FdE) seria um bom exemplo das novas formas de luta e de organização social no atual contexto do modo de produção capitalista (capitalismo cognitivo, capitalismo imaterial etc). Em suma, tanto este grupo como outras iniciativas envolvidos nessas várias manifestações no Brasil poderiam ser tomados como expressão da emergência de novos sujeitos políticos (precariado, cognitariado?). Certamente, o problema não é caso tomado como exemplo (FdE), mas deve remeter a um contexto sócio-histórico mais amplo.
Tem sido frequente na grande imprensa e na Internet a tentativa de se estabelecer aproximações “identitárias” entre essas movimentações do Brasil com outras da Espanha, Tunisia e Egito, dentro do impulso de nomear o novo e o inominável, domando e controlando pelo discurso, reduzindo estas formas a formatos esperados e de antemão presos à análise política jornalística. Há, todavia, diferenças evidentes entre o contexto social, econômico e politico do Brasil com esses países e, também, no perfil do público jovem que protesta aqui e nesses países. Ao tentar interpretar esses movimentos recentes a partir dessas categorias, e ainda, ao conectá-los culturalmente (e ideologicamente) aos levantes árabes e protestos europeus, não estaríamos diante de uma análise que produz um real à semelhança de um projeto político que se deseja ver realizado? Assim, ao invés de buscar uma forma em vias de se realizar, talvez, o mais interessante, seja buscar as “zonas de vizinhança” entre esses acontecimentos.
Portanto, em que medida tal análise que se pretende “imanente” (pela evidente vinculação teórica, que alias apreciamos parcialmente) não acaba por restabelecer um télos que pretendia negar? Neste caso, ao contrário das posições traduzidas no artigo do Passa Palavra, no artigo da Ivana Bentes o argumento procede da seguinte forma: sabe-se quem são os sujeitos políticos, sabe-se quais são suas formas de ação (a resistência pela multiplicidade, a luta das minoridades (que não se confunde com as minorias…) sendo necessário produzir e dar forma à sua luta política (não representativa, não unitária, não totalitária).
Há ainda um outro ponto em comum a partir do qual as diversas posições sobre o problema estão gravitando: a categoria trabalho. De um lado (Passa Palavra), o diagnóstico aponta que o trabalho e sua racionalidade de tipo capitalista dominou todas as esferas da vida, material e subjetiva, e isso efetiva a opressão e a super-exploração. De outro, o trabalho nas sociedades contemporâneas, mediante a ganho de centralidade do capitalismo imaterial, tornou-se cada vez mais “comunicacional”, diluindo as antigas dicotomias que definiam as fronteiras entre: trabalho e de não-trabalho; autonomia e heteronomia; emancipação e exploração, entre outras. Mas, ao mesmo tempo, sob esta perspectiva (do capitalismo cognitivo) seria possível enunciar outras possibilidades de luta e criação politica (as lutas pelo comum).
Interessamo-nos por ambas as posições e estamos animados com a possibilidade que temos de colocá-las em confronto a partir de um problema empírico que se apresenta diante de nós. Duvidamos, entretanto, que os problemas enunciados neste debate tenham respostas fáceis ou prontas. O momento parece exigir, simultaneamente, a prudência e a ousadia de ouvir com atenção e desconfiança o canto das multidões e das sereias. Talvez, o mais produtivo seja realizar um esforço para caracterizar e descrever quais são os problemas que estão colocados na mesa por ambas e outras perspectivas. Inevitavelmente, tal percurso irá interrogar tanto nossos pressupostos como as visões de futuro que inspiram o pensamento. Tal tarefa é necessariamente coletiva, e já está sendo realizado em diversos lugares por muitas pessoas. Assim, limitamo-nos a lançar alguns pontos que podem ajudar a dar visibilidade à encruzilhada, à fronteira do indistinto. É neste ponto que estamos, onde teoria e prática política estão se reinventando. Diriamos que a Política é exatamente este conflito pela definição das fronteiras do indistinto.
Que outros pontos poderiam entrar nesta lista? É preciso discuti-los:
Política e Trabalho: este binômio aparece sob diferentes formas (e.g. liberdade x necessidade). Fazer política no reino do trabalho? Ou a política só é possível fora da esfera das necessidades? Trabalho como meio ou fim para a livre criação? Talvez os artistas respondem essa pergunta de maneira diferente dos metalúrgicos, mas a coisa fica mais complicada quando aparentemente algumas qualidades do trabalho criativo passam a ser solicitadas em outras esferas. Tal problema aparece também nas tensões entre o livre ativismo e as necessidades de sustentabilidade financeira dos movimentos: relação financeira X política efetiva. Trabalhamos o ano inteiro e vamos fazer revolução nas férias? Ou tentamos trabalhar fazendo as micro-resistências cotidianas? Ou reduzimos o trabalho para ter tempo livre pra fazer política? Enfim, qual o lugar da política? Essa questão está sendo respondida de diferentes formas.
Capitalismo Imaterial (pós-fordismo) e Capitalismo Material: é relativamente fácil de constatar que muitas coisas mudaram na economia e nas relações de trabalho nos últimos 30 anos. O difícil é confirmar o que mudou e o que persiste, reexiste. Quais as continuidades e transformações? Elas se dão da mesma forma nos diferentes países? Pode-se afirmar que houve um certo deslocamento e crescente importância do chamado trabalho imaterial para a produção de valor monetário. As guerras sobre a propriedade intelectual refletem isso em certa medida. Ao mesmo tempo, é curioso observar, por exemplo, a atual disputa geopolítica por terras cultiváveis, pela água e pelos minérios raros. Como diz um amigo, “é preciso fazer as contas” e refletir se e onde se dá a exploração, e julgar se abandonar essas ferramentas como obsoletas não interessa apenas àqueles que desejam rearticular essas relações de exploração dentro de um ambiente de rede. Diríamos que, além de fazer as contas, teremos que enfrentar um inescapável problema teórico e político pela definição do que entra ou não na contabilidade.
Esgotamento do modelo de representação política (partidos políticos, sindicatos etc): em que pese a crescente descrença nos partidos políticos (ha sempre uma pesquisa disponível pra mostrar como os jovens não se vêem representados nos partidos) estão surgindo novos partidos no Brasil. Curiosamente, alguns grupos que criticam esta forma de representação estão criando iniciativas que apontam para um possível devir-partido (Partido da Cultura, Partido Pirata…). Os sindicatos, ainda que inseridos em dinâmicas de burocratização e relativamente atrelados aos governos, são atores relevantes e também sob disputas internas. No momento, o emprego formal cresce no Brasil. Veremos novas estruturas de representação emergir? Como combinar a luta por direitos (que implicam em mecanismos de institucionalização) com a luta pela crescente expressão das diferenças e minorias (não-numéricas, mas aquilo que não é hegemônico)? Uma lei sempre define um dentro e um fora? Velhas questões que continuam atuais e respondidas de formas diversas…
Trabalho e não trabalho; trabalho colaborativo e novas hierarquias: onde está a fronteira? Por exemplo, quando a livre formação contínua (acesso à cultura) é indistinta da formação para o trabalho como ficam os problemas relativos à reprodução do trabalho? E como fica a distribuição do trabalho e a apropriação dos valores gerados a partir do trabalho colaborativo? Onde começa e termina a colaboração e a exploração? Será que faz sentido falar em exploração nesses contextos? (claro que não estamos falando das condições neo-fordistas dos info-proletários).
Projeto(s) político(s): não se trata de ter um projeto politico (felizmente não há um), mas isso não significa que não exista projeto algum! Afinal, quais são os projetos e horizontes políticos que estão silenciosamente guiando nossas reflexões e práticas? Nesta atual encruzilhada teórica e política seria falso dizer que nossas análises não estão sendo informadas por tais projeções. Há, em boa parte dos grupos ativistas envolvidos nessas mobilizações, um discurso atualizado da luta e dos modos de organização não-institucional. Não se trata de restabelecer processos pré-determinados ou totalidades preestabelecidas, mas isso não significa pensar a prática política apenas em seus momentos instituintes, reduzida só ao acontecimento efêmero. Diversas linhas de ação, do final dos anos 60 e mesmo os movimentos anticapitalistas do ciclo Seatle, formaram-se num horizonte de práticas criativas, não-institucionais e sem grandes metanarrativas ou projetos finais que orientassem suas ações. Entretanto, passado os momentos disruptivos quais eram as iniciativas que emergiam e ofereciam condições de respostas organizativas à sociedade? Há boas lições dessas iniciativas. Como articular as novas formas de luta, a potencia criativa, os momentos instituintes com as dinâmicas que exigem maior duração e organização no tempo-espaço?
Novamente, são esses e outros (quais outros?) problemas/dilemas que estão na mesa, gerando diferentes respostas e influenciando as possíveis formas de organização social e luta política. Descrever, cartografar, analisar, problematizar essas situações e fazê-lo de forma compartilhada é uma tarefa relevante se quisermos ultrapassar as pequenas divisões e os conflitos que hoje enfraquecem esses movimentos.
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[1] O texto dialoga, em especial, com dois textos. Recomenda-se a leitura de ambos:
A esquerda fora do eixo – foi publicado como editorial no Passa Palavra [www.passapalavra.info].
A Esquerda nos Eixos e novo ativismo – de Ivana Bentes, publicado no Trezentos [www.trezentos.blog.br].
[2] Henrique Parra: polart [arroba] riseup.net ; Gavin Adams: gavartist [arroba] yahoo.com
[3] Pablo Ortellado publicou um ótimo texto onde é feita esta análise de maneira detalhada: Capitalismo e Cultura Livre: http://www.gpopai.org/ortellado/2011/06/capitalismo-e-cultura-livre/
Para o debate ficar melhor situado, publico as duas primeiras partes da resposta do Passa Palavra ao texto da Ivana:
http://passapalavra.info/?p=41431
Domingo na Marcha (1ª parte)
22 de Junho de 2011
Os limites das fábricas foram rompidos não para libertarem os trabalhadores do trabalho e da vigilância dos inspetores, mas para incorporar todas as dimensões da vida na mesma lógica da produtividade. Por Passa Palavra
O coletivo Passa Palavra recebeu a seguinte mensagem de Pablo Capilé, do Fora do Eixo:
«Olá,
Gostaria de convidar o coletivo Passa Palavra para um debate público sobre a “Esquerda Fora do Eixo” e a Marcha da Liberdade, que foi tema de artigo do site na semana passada. Acredito que o objetivo de vocês ao escrever a referida reportagem tenha sido o de ampliar o debate, portanto gostaria de dar sequência a essa iniciativa com um debate aberto, público e com transmissão ao vivo, na data que escolherem e no local que escolherem. Estaremos a disposição. Fico no aguardo.
abs!»
Enquanto espaço de debates do campo anticapitalista, não participamos de eventos organizados por entidades do “ativismo empresarial”, já que para nós as classes existem e são bem definidas. Porém, nos preocupamos com o caminho que seguirão daqui para a frente as lutas sociais. Por isso, a continuidade da reflexão – pública e ampla – segue aqui, em forma de uma série de artigos, e não numa atividade a ser protagonizada por aqueles que se colocam como os novos gestores das redes.
O tropicalismo fora do eixo
— Escrever sobre o tropicalismo? Ai! Ai! Mas vamos ser atropelados por este e por aquele exatamente aqui, porque um é o teórico do tropicalismo e o outro é mais tropicalista ainda.
— Mas o tropicalismo não é teoria, é puro blablabla, ele não tem nada a dizer além daquilo que já está dito.
— O tropicalismo foi vazio enquanto movimento político, não teve tempo, só se realizou no plano estético, por isso não deveríamos embarcar nele.
— Mas precisamente por isso devemos embarcar, porque é vazio, é o discurso do presente, a antropofagia do que está aí. Enfim, casa-se perfeitamente com a nova tendência do capital.
— Olhem, eu não entendo nada disso, a minha música é outra.
“Você não está entendendo
Quase nada do que eu digo
Eu quero ir-me embora
Eu quero é dar o fora
E quero que você venha comigo”
— Paciência, venha com a gente que a gente explica, ou não.
Quando Gilberto Gil subiu ao palco para disputar a final do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, no já longínquo ano de 1967, não era apenas o lançamento do grupo “Os Mutantes” que estava acontecendo. “Domingo no Parque”, a música que não saiu vencedora, conseguiu fazer no plano estético-cultural o que não se podia fazer pela política: abrir o país para o mundo. Estava ali um baiano a contar uma história nordestina ao som do que viria ser a mais importante banda de rock do Brasil. O nacionalismo que dominava tanto a esquerda quanto a direita não entendeu bem aquilo e tudo o mais que viria a acontecer em volta de [Gilberto] Gil e de seus companheiros e os isolou.
É verdade que, como fala Caetano Veloso no documentário “Uma noite em 1967”, Gil estava um tanto ou quanto inseguro aquela noite, era algo muito ousado a se fazer e as consequências não estavam claras. Caetano, que também foi finalista neste mesmo festival com a música “Alegria, alegria”, em outra já havia declarado o que pretendia fazer desde lá. “Eu organizo o movimento / Eu oriento o carnaval” era umas das frases mais fortes da música “Tropicália”, de 1968, que daria nome ao que estava acontecendo.
Rejeitados tanto pela esquerda (http://www.youtube.com/watch?v=mCM2MvnMt3c) quanto pela direita, inclusive pelos representantes destes dois lados da cena artística e cultural brasileira, seguiram a mando da Ditadura rumo ao exílio, e os representantes do tropicalismo não conseguiram consolidar o seu movimento, se diluíram naquilo que hoje se chama de MPB, mas não sem antes deixar em toda a música brasileira algo de irreversível. O Brasil estava no mundo e o mundo deveria também estar no Brasil.
Ora, havia outra coisa em comum entre a esquerda e a direita do período da ditadura. Ambos eram, além de nacionalistas, extremamente autoritários. E o tropicalismo, independentemente de ser liberal ou libertário, não caberia em nenhum dos dois extremos. Como no mesmo período havia um movimento cultural ainda mais forte que agradava à esquerda, não se chegou a configurar uma cisão entre a política e a cultura, mas os ressentimentos surgidos daí parece nunca terem sido remediados.
Quarenta anos depois o tropicalismo volta a encontrar-se com a política, mas como a esquerda mudou menos do que a direita — pior, aquela esquerda de lá é o Estado de hoje — não fica difícil adivinhar para qual lado o tropicalismo, ou pelo menos seus símbolos, foram ganhos. Chegou a hora, finalmente, de organizar o movimento?
Como a juventude sempre mudou o mundo
A cada novo ciclo de lutas impulsionado pelos trabalhadores, os capitalistas se colocam diante de um dilema: como aceitar as reivindicações sem perder o poder. Se as classes dominantes não respondem rapidamente à insatisfação geral, então esta transforma-se em revolta e, de revolta em revolta, pode se chegar a uma revolução. Mas se eles aceitam o que é reivindicado em sua totalidade, então as taxas de lucro e o poder das instituições que os sustentam podem ruir, e perde-se tudo da mesma forma.
Na maior parte dos momentos críticos da história destes dois últimos séculos o impasse foi resolvido de uma forma que não poderia ser melhor: o capitalismo conseguiu assimilar boa parte das reivindicações dos trabalhadores e ainda por cima elevar as taxas de lucro. Os trabalhadores exigiram o direito de se organizar, e assim foram permitidos partidos e sindicatos que, ao longo do tempo, se transformaram mais em capatazes da força de trabalho do que em instrumentos dos trabalhadores para conduzir as próprias lutas. Exigiram melhores condições de trabalho, direito à educação e ao lazer, previdência e tudo mais e, em troca, se tornaram mais produtivos. Por fim, disseram que pensam, que sentem, que têm desejos e ganharam em troca o direito de se “auto-explorar”. Nem por isso esse processo aconteceu sem tensões e incertezas e houve quem duvidasse que seria impossível assimilar mais uma vez as exigências colocadas em pauta.
Se fizermos as contas, veremos que a juventude de hoje está tão longe de 1968 quanto a de 1968 estava das revoluções da década de 20. Mas esta distância não se mede pela soma dos anos e sim pela forma como cada uma questionou o mundo e o seu passado, decretando o novo. Na década de 20 os trabalhadores, mesmo morando nas cidades, eram em sua grande maioria camponeses, e muitos ainda estavam a trabalhar na atividade agrícola. Em 1968 as formas de se construir as lutas já não poderiam ser as mesmas para uma geração que nasceu e se formou nos grandes centros urbanos e a fábrica era o destino certo da grande maioria. Nos primeiros anos do século XXI nem o campo nem as fábricas existem mais no imaginário da juventude, a forma de se relacionar com o trabalho é outra e é esta outra forma que explica como se dão, ou não se dão, as lutas atuais.
Hoje, vive-se num momento da história no qual a formação para o trabalho acontece desde o nascimento de uma criança. Não se trata somente de inculcar no pequeno ser alguma “ética protestante” que dome o seu espírito para o trabalho dócil ou uma visão fatalista do seu papel no mundo. As coisas vão além e desde cedo, cada brincadeira já é em si um treinamento, uma “formação” ou “capacitação”. Qualquer um espanta-se ao ver uma criança antes de aprender a ler e a escrever operar um computador ou um celular, esses que serão, qualquer que seja a sua profissão, se é que terão uma, os seus principais instrumentos de trabalho.
Daí para a frente, a cada inovação tecnológica, novos aprendizados são incorporados à formação dos sujeitos. Os que, por outro lado, não tiveram acesso a esta formação estão automaticamente excluídos do novo mundo do trabalho, vão viver sob as relações de produção mais arcaicas e opressoras, e das forças produtivas mais obsoletas. Reparem na mudança que aconteceu em um século: no início os trabalhadores não precisavam saber nada do seu próprio trabalho, bastava apertar um parafuso, bater o martelo em alguma lâmina ou acionar alavancas. De meados do século passado até o seu final as fábricas e o sistema educacional se encarregaram de preparar os trabalhadores para atividades mais complexas, chegando a explorar a criatividade e as emoções dos mesmos no estágio mais avançado deste processo. Hoje os pais se encarregam desta formação, as mídias, as redes sociais virtuais e, na maior parte do tempo, é o trabalhador que está a se autoeducar, quando não a criar as ferramentas da sua própria exploração. Cada um é um trabalhador desde que nasce, continua sendo-o nas suas horas de lazer e não deixa de ser quando na inatividade.
Uma das características, portanto, desta nova forma do mundo do trabalho já está clara. Os limites das fábricas foram rompidos não para libertarem os trabalhadores dos rígidos turnos de trabalho e da vigilância permanente dos inspetores, mas para incorporar todas as dimensões da vida na mesma lógica da produtividade, desta vez ainda mais intensa. Outras características, entretanto, só começam a ficar nítidas agora, com a emergência das primeiras lutas organizadas por essa nova geração.
O segmento do proletariado que mais produz valor para o capitalismo e, por isso, é a fração mais poderosa em termos de negociação, está dissipado. É esta nova geração de trabalhadores, ainda jovem, que opera as novas tecnologias da produção e está encarregada de manter em pleno funcionamento os centros mais lucrativos do capitalismo moderno. O que produzem, em muitos casos, não está sujeito à lei da gravidade, são produtos intangíveis, mas nem por isso fugiram da lei do valor. Pela infinidade de formas que o trabalho ganhou e pela infinidade de produtos que se cria cotidianamente, além, é claro, da proximidade que mantêm dos gestores do próprio trabalho, a identificação entre eles como pertencentes a um mesmo grupo social, ou uma fração da classe trabalhadora, é prematura, se tivermos uma concepção otimista do processo, ou extremamente difícil, se quisermos ser mais realistas.
Entretanto, não é por não se articularem para as lutas, que não se articulam para produzirem seus próprios símbolos e espaços de convivência. Esta articulação não acontece nas praças ou nos refeitórios, mas principalmente pela internet, nas redes sociais e outras ferramentas virtuais. O espaço do encontro físico, “presencial” como se costuma falar nestes meios, para que cada um possa se reconhecer enquanto parte de uma totalidade, ainda não estava dado. É uma geração de trabalhadores que consegue interagir numa velocidade e numa dimensão nunca antes imaginada por nenhum outro movimento do proletariado, mas em compensação têm uma dificuldade nunca antes vista de se organizar, de sistematizar seus anseios e construir uma pauta que movimente todos numa direção comum. A interatividade, portanto, por mais colaborativa que chegue a ser em alguns momentos, não leva a uma organização de classe.
Por último, e talvez o mais fundamental porque o mais contraditório. Desde que a época dos artesãos foi superada para se instituir o trabalhador moderno que não tem nada além da sua força de trabalho, é a primeira vez que os trabalhadores também criam suas próprias ferramentas de trabalho, ou pelo menos modificam profundamente aquelas criadas pelas empresas. Essa adaptação das ferramentas de trabalho, geralmente softwares mas não só, dá aos trabalhadores um profundo conhecimento sobre os processos produtivos. E é esse conhecimento apropriado e ressignificado pelos trabalhadores que permite em alguns espaços criar produtos e serviços sob uma lógica distinta da imposta pelo capitalismo e, em outros tantos, construir até produtos do anticapitalismo.
Permitir que os muros das fábricas fossem rompidos elevou a produtividade e manteve vivo o capitalismo por mais um ciclo, mas ao mesmo tempo deu à questão do controle sobre os trabalhadores o tamanho do planeta.
http://passapalavra.info/?p=41710
Domingo na Marcha (2ª parte)
26 de Junho de 2011
A “geração 2.0″ não nos é estranha; é quando tiram dela o “rancor” que ela se transforma em estranha mercadoria. Por Passa Palavra
Pelo fato de reivindicarmos a herança de séculos de lutas e a criticarmos com liberdade, já fomos acusados de tudo. Certa esquerda tradicional, com as mesmas palavras-de-ordem do século XX, diz que não devemos puxar certos debates, que não podemos tratar de certos assuntos em público – exatamente os assuntos que dizem respeito às formas de dominação sobre aqueles à custa de quem constroem seu capital político. Por isto não nos espanta que críticas semelhantes nos sejam dirigidas não pelos jovens em luta, pelos jovens da rua, mas por aqueles que, tendo sido um dia jovens que localizaram muito rápido o caminho das pedras do poder político e econômico, e incapazes de refletir criticamente sobre aquilo que faz deles mesmos diferentes desta esquerda tradicional, ocupam nas lutas o mesmo lugar daqueles dinossauros, daqueles limitados a quem tanto criticam. Temos medo do novo e somos teoricamente limitados, é o que nos dizem. E isto que nos dizem, nos é dito tendo como base exatamente a mesma herança que reivindicamos – embora a vejamos de lugares diferentes, por sinal diametralmente opostos. Para sair desta geleia geral, é preciso que nos expliquemos, mais uma vez.
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Allen Ginsberg (de cartola) em manifestação contra a Guerra do Vietnã
Contracultura pode parecer coisa nova, mas é velha como andar para a frente – tal como sua cooptação. O romantismo do final do século XVIII e início do século XIX; o dandismo dos primeiros anos do século XIX e a boemia do final deste século; os dadaístas e toda a “geração perdida” no início do século XX; os beats no final da década de 1940; no início da década de 1960, os opostos mods/rockers (Inglaterra), blousons noirs/blousons dorées (França), dijkers/pleiners (Holanda) e beatniks; todos são movimentos contraculturais. Alguns deles, mais especificamente, são movimentos contra o capitalismo, contra alguns de seus aspectos, mas que, em geral, tomam o caráter de movimentos arcaizantes, cultores de aspectos mitificados de um passado pré-capitalista deslocados de sua História. O dandismo, por exemplo: contemporâneo dos primeiros passos da industrialização, foi a apropriação estética por parte de jovens burgueses da Inglaterra e da França da vestimenta, dos trejeitos e do modo de vida dos aristocratas do Ancien Régime; mesmo as simpatias do lucidíssimo Oscar Wilde com o socialismo não foram outra coisa além de passos necessários para a constituição do Individualismo (com “I” maiúsculo). Os beats e beatniks cultuavam não apenas o improvisado e o onírico, mas também o místico e o oculto, e alguns se tornaram verdadeiros reacionários; ao contrário do budista praticante Allen Ginsberg e de William Burroughs, imersos – cada qual a seu modo – em todo movimento cultural (e contracultural) posterior aos beats, o genial Jack Kerouac – depois de anos sentado no sofá da casa da mãe vendo programas de auditório na TV, barrigudo, alcoólatra e reacionário, afastado de seus companheiros de geração beat e odiando cada cabeludo que via pela frente – diria ser, em certo momento, “um estranho e solitário católico louco e místico” que não conhecia “nenhum hippie” pois “eles pensam que sou um motorista de caminhão”.
“Roube este livro”
Nenhum destes assemelha-se, de qualquer maneira, ao que vem a ser a geração que, a partir dos anos 1960, questionou radical e diretamente o modo de vida da sociedade fordista, em quase todos os domínios da vida social. Esta contracultura não se esquivou de certos confrontos e de certas alianças. Tomemos o exemplo de Abbie Hoffman. Não obstante a teatralidade e ludicidade típicas de sua política na fase do Youth International Party, publicou em 1971 Steal this book; além da incitação direta (“Roube este livro”), a obra continha conselhos sobre como plantar maconha, viver numa comunidade alternativa, roubar comida, furtar lojas, afanar cartões de crédito, fazer bombas e conseguir armas. Os ativistas da contracultura da época eram ao mesmo tempo teóricos, agitadores culturais e construtores de barricadas – como Rudi Dutschke, Alain Geismar e Dany Cohn-Bendit bem o demonstram. E sabiam muito bem que suas lutas estavam umbilicalmente ligadas não apenas às lutas de minorias, mas principalmente àquelas da mais ampla maioria. Não se tratava apenas, como analisaram certos pós-estruturalistas, de lutas travadas por grupos minoritários de trabalhadores, de mulheres, de expressões sexuais, de grupos étnicos etc., que não compartilhavam dos modos de expressão e dos valores da maioria e organizaram-se para fazer valer seus modos de expressão e valores e, a partir daí, colocar questões que alcançassem e interferissem nos modos de expressão e valores da maioria; tratava-se, sim, das lutas destas minorias, mais visíveis, e também das lutas invisíveis da mais ampla maioria pela transformação radical da sociedade – ou seja, de lutas revolucionárias, no mais forte sentido da expressão.
“O direito burguês é a vaselina…” (Nanterre, 1968)
Não por acaso o Maio de 1968 na França tomou as proporções que tomou. Não houve apenas um Maio de 1968, mas um Maio-Junho de 1968, a maior greve geral da história da França, em cujo apoio os estudantes radicais se concentraram, deixando a Sorbonne aos situacionistas (e seus telegramas inócuos) e partindo para a periferia operária do norte de Paris onde, ao lado dos grevistas, se bateram com os policiais e contra os burocratas sindicais. Só depois começou a se falar do Maio, para apagar a memória do Maio-Junho. Mais radicais ainda foram os trabalhadores chineses durante a Revolução Cultural, que sequer precisaram destes agitadores para perceber a enorme contradição entre o projeto dos burocratas do Partido Comunista, de promover apenas uma renovação nos quadros da burocracia, e seu projeto de uma China construída a partir de uma federação de comunas nos moldes da Comuna de Paris, com dirigentes livremente eleitos e revogáveis. Vale o mesmo para os trabalhadores de Praga, para os estudantes mortos no Massacre de Tlatelolco, para os estudantes e trabalhadores italianos que ocuparam fábricas em 1969 e passaram toda a década seguinte em luta… Não é esta, por exemplo, a história do mesmo Cesare Battisti por cuja libertação tantos – entre os quais nos contamos desde o início – se bateram?
Jane Alpert procurada pelo FBI: o rancor na geração 68
Esta geração, embora contasse também com inegáveis elementos arcaizantes, foi a responsável pela mais profunda crítica prática à tecnocracia – influência tanto de seu próprio modo de vida quanto das leituras dos comunistas de conselhos, dos anarquistas, dos frankfurtianos, de marxistas críticos como aqueles agrupados na revista Socialisme ou Barbarie, dos primeiros representantes da new left etc. Foi também, infelizmente, a primeira cujos mais visíveis representantes converteram-se muito rapidamente em candidatos ao status quo, a fazer parte desta mesma tecnocracia que tanto criticaram. Dany Cohn-Bendit, ele próprio tornado parlamentar europeu décadas depois, fez em 1988 o balanço desta geração em Nous l’avons taint aimée, la révolution: Jerry Rubin transformado em executivo yuppie; Bobby Seale, ex-Pantera Negra, transformado em cozinheiro filantropo; Roel van Duyn e Rob Stolk, ex-Provos e ex-kabouters, transformados em políticos “verdes”; isto enquanto gente como Jane Alpert, Hans-Joachim Klein e tantos outros era obrigada a esconder-se como cães escorraçados por haverem lutado de armas em punho e bombas à mão contra o “sistema” – do contrário, seriam presos até sabe-se lá quando. Salvou-se Rudi, assassinado aos poucos.
Deleuze, Sartre e Foucault em conferência do Groupe d’Information sur les Prisons (GIP) de 1972
É a esta geração que se vinculam alguns de nós. Os muros das fábricas não caíram de velhos, não. Se ruíram, foi porque a luta dos trabalhadores, em especial de sua geração mais jovem, demonstrou na prática os limites da sociedade fordista, numa ponta, e da superexploração nos países do assim chamado “Terceiro Mundo”, de outro. Estes jovens trabalhadores mostraram também os limites de toda luta que não fosse internacionalizada, que não contasse com apoio e solidariedade ativos por toda a parte. Sabemos de onde viemos e não andamos por aí a esquecer nossa história – que, afinal, é a de nossas próprias vidas – em nome da mais recente moda intelectual. Para aqueles do PassaPalavra que estavam em Paris nos meses da agitação revolucionária – e podemos dizer “aqueles” no plural – Foucault, Deleuze, Guattari e tantos outros pós-estruturalistas não são representantes dos meses de Maio-Junho de 1968, mas representantes do fim destes meses: isto era tão evidente para todos que se alguém na altura pretendesse o contrário só receberia gargalhadas em troca. Esses teóricos geraram-se e proliferaram nas ruínas de uma sociedade possível que os radicais de pouco antes haviam pretendido construir, e serviram para erguer um biombo que escondesse a possibilidade desta alternativa.
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São Paulo, 20 de abril de 2001: “Ah-ha, uh-hu, a Paulista é nossa!”
A dita “geração 2.0” não nos é estranha, muito pelo contrário. Outros dentre nós que integramos o PassaPalavra foram despertados para a militância pelo chamado à solidariedade internacional feito em 1994 pelos zapatistas – estes que, mesmo apropriados pelos pós-modernos como ícones, não se esquecem que tomar os meios de produção é fundamental para avançar qualquer luta anticapitalista, “minoritária” ou não. Alguns dentre nós participaram ativamente dos movimentos antiglobalização que antecederam as lutas em Seattle (1999) e ultrapassaram os limites impostos pela brutal repressão em Gênova (2001).
Somos nós o cognitariado; somos nós os que produzem com base no saber sobre as “novas tecnologias comunicativas”. É ele, transmitido de boca a ouvido ou de tecla a tela, quem nos permitiu estar lado a lado com tantos condenados da terra e apoiá-los em suas lutas enquanto vivíamos as nossas próprias. Por outro lado, somos nós o precariado; por opção política ou por total falta de oportunidade, também somos nós os que pulam de emprego em emprego, de bolsa em bolsa, de ONG em ONG, de bico em bico, sem futuro, sem expectativas, sem chances, sem nada. Nós não somos, nem agimos, nem vivemos, nem nos vestimos mais como aqueles trabalhadores que conhecemos quando pequenos – estes que eram nossos próprios pais – mas nem por isto deixamos de ser explorados. De um lado do Atlântico somos a geração à rasca; do outro, somos os que sabem por experiência própria que as promessas do pleno emprego jamais se cumprirão outra vez. É isto o que nos impele a lutar.
Seattle, 1999: “rancor 2.0″?
Nossa geração, de certa forma, continua e aprofunda lutas que aquela geração dos anos 1960 iniciou. Squats, okupas, pequenos coletivos e organizações, antes isolados ou com baixa capacidade de integração além daquilo que seus integrantes poderiam alcançar com os meios de que dispunham, contaram a partir de meados da década de 1990 com uma poderosíssima ferramenta de luta: a internet, ainda em sua versão “1.0”. Através dela – mas não somente – integramos articulações como a Ação Global dos Povos, de cujos Dias de Ação Global participamos ativamente em São Paulo, Salvador, Fortaleza e tantas outras cidades do país. O contato com formas de ativismo e militância inauditas no Brasil da época – tutte bianchi, autonomen, adbusters, Reclaim the Streets, Earth First!, black block, Ruckus Society, Direct Action Network etc. – e com movimentos sociais de base mundo afora – zapatistas, CNT, Tinki Huasi, CONAIE, Federação Krishok, COBAS, CGT, as Seis Federações do Trópico, Tino Ragantirotanga etc. – nos deu experiência para tocar iniciativas de produção de mídia, a apoiar os movimentos sociais que, como hoje, viviam pesada repressão e dar início a formas de protesto e a movimentos sociais que expressassem tudo aquilo que vivíamos e desejávamos.
Jerry Rubin 1968/1985
Ocorre que a rebeldia de décadas atrás já havia sido transformada em valor positivo no seio do próprio capitalismo – que, não esqueçamos, é dentre os modos de produção aquele único que necessita de constante renovação e destruição de aspectos de si próprio para seguir existindo. Na medida em que muitos daqueles que nos antecederam e outros daqueles com quem convivemos já haviam passado para o outro lado da trincheira, surgiram profissionais especializados em perceber nosso “ser” e nosso “fazer” para transformá-los em mercadoria – os cool hunters, praga espalhada por todos os cantos com vários nomes, não raro agindo em segredo para captar para dentro da produção capitalista aquilo que antes se lhe opunha. Eles são o aspecto mais evidente de uma inversão que se dá hoje na velha indústria cultural. Se antigamente a mais-valia para ser realizada precisava da audiência e dos olhares, isto é, para vender aquele artista do catálogo eles precisavam do jabá e de toda essa estrutura, a tendência da indústria cultural hoje é justamente a inversa: monetizar a partir do produto cultural que atraiu os olhares, mesmo quando produzido fora de suas cadeias produtivas principais. Veja-se, por exemplo, como a própria noção de interatividade na internet – boa invenção da contracultura digital materializada, entre outros lugares, na rede Indymedia – serve hoje, extirpada de sua radicalidade, ao mercado: demonstra-o, mais banalmente, o sucesso que hoje fazem certos vídeos postados no YouTube quando incorporados nos programas de TV. Os cool hunters e seus congêneres de hoje não precisam mais ser profissionais; basta estar “antenado” e vender sua ideia. Como se vê, conversões como a de Jerry Rubin hoje são fichinha.
Do berço à cova
E assim bailamos a dança de São Vito conosco próprios. Como o capital é uma relação entre pessoas mediada por coisas, ao mesmo tempo em que lutamos contra tais relações, somos não raro obrigados a fazê-las funcionar; na medida em que agimos e criamos novas formas de viver, elas logo são incorporadas como mercadoria. Vivemos esta contradição em nossa própria carne com aquilo que produzimos, mas sabemos bem de que lado estamos e quem queremos ter ao nosso lado na luta contra o capitalismo, que não é outra coisa além de luta entre classes; é isto que nos orienta e nos leva a criar todas as dificuldades possíveis à apropriação e mercantilização daquilo que produzimos. A luta contra a propriedade privada dos meios de produção se dá também no campo da produção da cultura digital, e por isto mesmo estamos em constante alerta contra qualquer forma de concentração de meios de produção cultural digital nas mãos de poucos – mesmo quando estes parecem multidão. Alguns tentam, com a desculpa da “imanência”, de que “só existe este mundo aqui”, sair desta esquizofrenia em que todo movimento anticapitalista hoje se vê enfiado. Não veem que estas são exatamente as justificativas daqueles que querem quantos novos mundos possíveis criemos para transformá-los naquilo que não são nem nunca se quis que fossem? (Na verdade, talvez o vejam bem até demais; aí seríamos nós os ingênuos, mas já é outro papo, bem mas grave.)
Antonio Negri (na frente, à direita) nas ruas pelo Poder Operário
Por isto, aquilo de que falam Negri, Bifo, Virno, Lazzarato, Bologna, Marazzi e outros tantos pós-operaístas deslumbrados com os Grundrisse de Marx é exatamente o que vivemos, nós mesmos, em nossas carnes, bem antes que escrevessem sobre isto. Só viemos a conhecê-los fora de seus restritos âmbitos de atuação quando Império fez de Negri pop star do jet set intelectual internacional e levou-o a palestrar para o Ministério da Cultura em 2005. Quem mais precisa destes teóricos não somos nós, mas certos acadêmicos burocratizados e descolados das lutas, incapazes de ver o que se agita diante de si sem os óculos da teoria ou interessados nesta agitação para transformá-la em mais uma mercadoria; ou aqueles que, surgidos de nossa própria geração, pretendem encobrir com palavras difíceis sua conversão ao status quo. (Na verdade, quando Negri, exilado em Paris, apresentou em 1978 sua leitura dos Grundrisse em nove seminários na École Normal Supérieure da rue d’Ulm, falou para gente bem parecida conosco próprios e apresentou os rascunhos de Marx como um texto “dedicado à subjetividade revolucionária” que articula “uma apreciação das possibilidades revolucionárias criadas pela ‘crise iminente’ com a vontade teórica de sintetizar adequadamente as ações comunistas da classe trabalhadora frente à crise”. Isto posto, é bastante sintomático que alguns epígonos do operaísmo e do pós-operaísmo não retenham este conteúdo classista e prefiram as fugas linguísticas.)
***
Apoiar as lutas
Como se vê, para nós a prática antecede a teoria. Ou, melhor dizendo, para não colocarem palavras erradas em nossas bocas: não nos interessam os termos abstratos e irreais em que tal oposição tradicionalmente é apresentada, mas estes outros, mais duros porque concretos: não há teoria que não seja reflexão sobre lutas concretas, reais, vividas, sentidas na pele e narradas por aqueles que lutam, enquanto lutam. Por isto mesmo, dizemos estar aqui para “noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas”. E é o que temos feito desde publicamos nosso primeiro artigo em 2 de fevereiro de 2009.
Os limites do fordismo colocam-se para nós não através de leituras do teórico A, B ou C, mas através da luta dos terceirizados, tidos como invisíveis – enquanto estiverem trabalhando, óbvio; da análise crítica das compensações para aqueles que jamais conseguirão retornar ao patamar de renda proposto pelos métodos fordistas clássicos de contenção dos conflitos sociais; da luta dos migrantes, que agora também estão no Brasil – país que hoje decola rumo a uma versão renovada do projeto “Brasil Potência” de décadas atrás, sobre o que pouco se tem refletido criticamente. Não reconhecemos tais limites desde hoje ou ontem, nem tampouco o fazemos apenas pela perspectiva da crítica às novas formas de exploração, mas também pela das críticas às velhas formas de luta, que mantemos desde muito tempo e não abandonamos. As velhas formas de exploração, que também criticamos, não morreram, muito pelo contrário; não há “tradição inventada” que nos faça esquecê-las, mesmo quando se dão nos lugares mais inusitados.
E para nós não se trata apenas de acompanhar as lutas quando rebentam, mas também de conhecer e divulgar as expressões culturais que nelas surgem; o cotidiano dos que lutam e dos que, entediados e angustiados, ainda não o fazem; o fazer artístico do dia a dia e as plataformas políticas que só a intuição poética pode oferecer… É só a partir disto, e não de qualquer leitura abstrata ou diálogo afável, que nos é possível conhecer a mercantilização da cultura e sua crítica, feita por todos os meios necessários. Para nós, “periferias” não são sujeito das lutas, mas sim o território onde trabalhadores, qualquer que seja o adjetivo que se lhes dê, lutam contra a paz dos cemitérios que as classes dominantes lhes querem impor, de armas em punho, sobre os cadáveres de inocentes. Lá onde também se luta contra o autoritarismo nas escolas e contra as tarifas abusivas dos transportes, é lá onde preferimos estar.
“Se não posso dançar, não é minha revolução”
Nossa própria história de militância demonstra que acampamentos e “revoluções 2.0” não nos são estranhos – embora sobre eles nos demos o direito de divergir em um aspecto ou outro. Acompanhamos a “Primavera Árabe” e outras formas de manifestação na África (Marrocos, Angola, Tunísia, Egito, Bahrein etc. e mesmo lutas esquecidas como as que ocorrem na Costa do Marfim). Vimos nestas lutas o grande potencial das mídias interativas sempre que usadas para garantir a mais ampla autonomia e horizontalidade no seio das lutas. Isto nada mais é que a retomada de práticas que alguns de nós viveram sob outras formas no passado, e que outros de nós viveram há poucos anos e vivem ainda em outras situações.
Amarração 2.0?
É esta experiência que nos leva a ter os dois pés atrás com certo “ativismo 2.0” – da qual o coletivo Fora do Eixo é apenas um exemplo pontual, pois nele se incluem também inúmeros coletivos “artivistas” locais enredados na malha dos Pontos de Cultura, organizações como o Partido da Cultura (PCult) e ONGs como a Casa da Cultura Digital e Instituto Overmundo – que concentra saber e poder e, sob a desculpa de produzir novos modos de “viver” e “fazer”, cria nichos de mercado, domina técnicas de acesso a recursos públicos e pretende agora ter legitimidade social usando as Marchas da Liberdade como meio. Isto, evidentemente, desde que consigam antes esvaziá-las de qualquer conteúdo potencialmente conflituoso como a luta contra a repressão policial e a luta pela tarifa zero para enfim transformá-las nas “ilhas dos rancores proibidos” de um “arquipélago Gulag do pós-rancor”. Guardadas as devidas proporções e os diferentes tipos de capital que mobilizam, agem como certos sindicalistas que usam manifestações de trabalhadores e convenções coletivas tanto para rentabilizar certas operações financeiras que realizam através dos sindicatos quanto para viabilizar novas formas de arrecadação (contribuição confederativa, seguros de vida coletivos intermediados pelo sindicato, comissões de conciliação prévia etc.). Enquanto para os sindicatos vale o capital na forma de dinheiro antes de qualquer coisa – afinal, são “analógicos” – no caso das Marchas o que se mobiliza também é o capital simbólico, ou seja, o prestígio de terem sido organizadores de tal movimento e de terem-lhe dado tal ou qual rumo, ou mesmo nenhum; isto lhes será útil nas futuras disputas com uma gestão do Ministério da Cultura que agora, circunstancialmente, lhes é hostil e ameaça quebrar o novo modelo de “mercado da cultura” em cuja instituição trabalham ativamente. Justo eles, os “modernos”, os “digitais”, a guardar tantas semelhanças com estes ultrapassados trambolhos “analógicos”!
O tom com que iniciamos o debate foi, como se viu e como se vê, tão duro quanto duro precisou ser o próprio debate; do contrário, lá estaríamos nós, diante destes adversários, dizendo como poderiam fazer para apagar exatamente aqueles aspectos que fazem deles exatamente o que são – e, por tabela, servindo-nos de bandeja não à antropofagia, mas à fagocitose que lhes assegura a sobrevivência ameboide no “mercado das ideias”. E é neste mesmo tom que seguiremos debatendo. Como se vê, não negamos a produção cultural digital e o uso de novas tecnologias em favor das lutas sociais. Do contrário, nós que fechássemos o PassaPalavra em nome da coerência, pois dizemos em nossos Pontos de Partida: “é urgente a criação de uma rede que ligue as diversas formas de contestação, um espaço comunicacional que favoreça o contacto entre as diferentes correntes anticapitalistas, independente tanto do poder económico como das tutelas políticas e ideológicas. Igualmente, apoiamos e estamos dispostos a cooperar com outros projectos neste sentido”. Por isto mesmo, somos, sim, contra, rancorosamente contra, toda e qualquer forma de mercantilização da cultura disfarçada de “ativismo” “cidadão” “pós-rancor”, e quanto a isto – não custa dizê-lo mais uma vez – não há diálogo possível.
(Continua em breve)
O comentário da Ivana Bentes desqualifica exatamente o que eu mais me interessei no artigo do Passa Palavra, e que me incomodou desde o primeiro momento que ouvi falar do Fora do Eixo, que é deixar claro a existência de um projeto político. Não vejo nenhum problema na existência de qualquer projeto político, o que torna a coisa toda muito suspeita é que as coisas são feitas como se este não existisse.
Como discurso que fala de uma posição muito próxima desso circuito FdE, o tom quase raivoso do comentário da Ivana Bentes só me confirma essa impressão. Afinal de contas, qual o problema em assumir essas intenções? Talvez por que isso entre em conflito com o discurso da horizontalidade, colaboratividade?
Concordo com ela sobre a potência de apropriação dos meios da política tradicional para a proposta de alternativas a ela. Mas o que o artigo do Passa Palavra indica é o limite (que mais de um movimento social já cruzou) entre apropriação dos meios e assimilação nesses meios. E esconder, para o bem dos meios, os próprios fins, é o caminho mais curto para se cruzar essa linha. Supondo que o FdE não queira cruzá-la…
É engraçado analisar esse incômodo que surgiu entre os intelectuais anticapitalistas em relação ao FdE. Se eles são torpes, maquiavélicos e pretendem dominar o mundo, bom, onde estavam todos esses teóricos do cha-cha-cha enquanto eles se articulavam? O FdE não nasceu grande, foi um trabalho de base de anos. O que estavam fazendo os críticos? Provavelmente lendo e debatendo entre si.
Gente, a história é feita por que age, pró capitalismo ou anti, mas AGE. Vocês teóricos têm seus egos do tamanho de seus currículos acadêmicos, e na luta anticapitalista ambos não servem pra porra nenhuma. O FdE está organizado, tem base e tem poder, eu sou radicalmente contra eles, e vou continuar AGINDO para mudar a realidade da qual discordo. Agora, falácia, me poupem.
Bem vindos ao século XXI.
Concordo no que diz a respeito ao Fora do Eixo. Tanto que abordarei isso em meu TCC, juntamente com a política de economia criativa e economia solidária que o grupo propõe. Aliás, gostaria de propor um diálogo a respeito disso, obviamente se lhe interessar. Teria como me passar um email para contato, Ivana? Sou estudante do penúltimo semestre do curso de Turismo pela Universidade Federal de São Carlos e estou desenvolvendo uma pesquisa a respeito deste novo cenário cultural e artístico.
Obriagada!
Respondi em algum dos tantos tecidos da rede, o artigo da Ivana. Agora, abri essa outra janela e me lambuzei com tantos fluidos do livre pensar. Lambuzei-me tanto, que me deu vontade, de continuar chafurdando. Verifico a importancia do pensar, do exprimir, mais de que comunicar. Faço sem nenhuma veleidade de querer convencer e muito menos ser convencido. Apenas, encontrar companheiros(as) para continuar a caminhada. Precisamos muito, como militantes de esquerda, em especial nesse momento de uma crise, segundo alguns, estrutural, do capitalismo. Penso no que diz Istvan Meszaros; “precisamos romper com o socio metabolismo do capital”. E pergunto, como?Repito o que alguem já disse; “É facil fazer o certo, o dificil é saber o que é certo”. Lembro Marx; “É preciso utilizar as armas do argumento, senão teremos de utilizar o argumento das armas”. Acho que devemos utilizar as armas do argumento, com alguns argumentos que nos armem para sucessivas “rupturas revolucionárias”. Quando falamos em participação dos jovens, da contracultura, das “multidões”, das marchas, de maio de 68, em que se dizia; “Não devemos nos aborrecer e sim aborrecer os outros”. Enfim todos os movimentos de rebeldia, lembro; “nem todo rebelde é um revolucionário”. Conheço varios “rebeldes” que se tornaram conservadores. Como conheço “tropicalistas”, que foram tragados pela autofagia do capital. E lembro, mais uma vez Marx, quando diz que o capitalismo é a “contradição em movimento”. Diz mais, o capitalismo não cairá por si e sim pela ação revolucionária do homem. Dizia mais; ” não devemos melhorar nem humanizar o Estado e sim destrui-lo”. Falando da importancia da cultura, corroboro, citando, Benjamim; “Não devemos estetizar a politica e sim politizar a estética(cultura). Vivemos hoje a cultura do escandalo, do falso moralismo espetacularizado. Sabemos que o capitalismo, sobrevive da barbarie ou da fetichização. Somos todos mercadoria, fetichizados, cooptados e incorporados como capital. O grande fetiche simbólico hoje é traduzido pelo “novo”, o “diferente”, cada vez mais igual. A necessidade, quase uma intimação para sermos felizes. Temos de ser os”rebeldes do gozo”. Somos todos “dependentes” do gozo. Gozar à qualquer “preço”. O gozo substitui a liberdade, o sonho, a utopia. Assim , deixo aqui, despretensiosas reflexões. Acho que precisamos “desfetichizar a sociedade”. Transformar a “multidão rebelde”, em “sociedade revolucionária”. Por fim “politizar o gozo”.
Estou achando super divertido o esforço em teorizar esse movimento. As vezes, é necessário desligar o computador e sair na rua, conversar com as pessoas e ver o que elas querem e necessitam, materialmente e afetivamente… O movimento M15 está fazendo esse diálogo, pois fala também a língua dos aposentados, dos estudantes, dos desempregados. As pessoas não querem enfrentamentos, representantes com discursos inflamados, não buscam inimigos… Querem viver, ser felizes, em paz, reviver o espaço público perdido e cobrar compromisso, responsabilidade e integridade aos políticos.
A democracia direta, que reclama autonomia pessoal, ensaia ainda seus primeiros passos. O desafio desse momento é fazer a transição desse sistema, para algo novo que não sabemos exatamente o que será, como diz o Eduardo Galeano (http://www.youtube.com/watch?v=rKc-lal1HJM).
Contra a cultura de escritório. Contra as escolas, lá é que somo acostumados a ficar em sala, sentados por 3 horas, antes de um intervalo de 15 minutos. Contra a domesticação. Contra a relação patrão-empregado.
Fraco …
Na única linha de seu texto que dedicou aos “pobres e precários das periferias e favelas” Ivana apenas aventa a hipótese de que essa população “outra” poderia ser incluída, numa espécie de futuro hegeliano, pelos movimentos “pós-rancor”. Não diz quando nem como e parece acreditar, tal como os marxistas soviéticos, que a força da história move-se a si mesma, e incluirá os “pobres precários” no mundo da política. Vale aqui mencionar o dado geográfico de que a população das favelas é hoje o maior agrupamento humano do planeta (como revela Mike Davis). Tratar esse agrupamento como uma exceção é reafirmar o mesmo tipo de mecanismo normativo que postula o modelo masculino-branco-ocidental como o tipo humano por excelência, mecanismo que o texto critica explicitamente, mas corrobora em sua inevitável faceta perversa.