Trezentos

O início de uma multidão

A CULTURA DO VAZIO

 

Por Carlos Henrique Machado Freitas

A edição da Carta Capital da semana que passou, projeta em lentes fortes e canhões de luz o vazio da cultura brasileira. O artigo assinado por Mino Carta,

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-imbecilizacao-do-brasil/ dá conta da imbelicilização da cultura do espetáculo. O bombardeio em parte serve como grande lição de um dos gurus do jornalismo brasileiro. Mas mesmo esse mirante impaciente que proporciona sensações fortes quando denuncia o desastre da informação, não faz uma observação inédita e curiosamente também não faz uma autocrítica.

Quem esperou que o debate proposto por Mino se tornasse mais profundo, frustrou-se, pois seu aprofundamento foi basicamente no próprio sistema da mídia e sua subordinação ao capital. No mais o conteúdo normativo de seu artigo não trata exatamente de nossa identidade, de nosso território, de nosso chão. E quando ele não fala do território, não trata da base, do trabalho, da resistência, da troca de materiais da própria vida espiritual que influi de forma determinante no território cultural.

Há ali uma queda de braço fundamental com a mídia, mas parece que Mino não enxerga assim. O próprio sistema de relações constituídas dos espaços culturais, públicos e privados, não está no conteúdo do seu artigo. Mino pega um fragmento, um princípio geral da cultura de massa e ataca os produtos escolhidos, mas sua visão armazena um sentimento equivocado de que existe uma estrita obediência da população aos mandamentos que regem a produção de cultura do entretenimento. Pior, Mino pára no tempo e perde a capacidade de acrescentar que, por meio de uma organização social, há um quadro sendo modificado e com resultados importantes para o Brasil, como é o caso dos Pontos de Cultura.

Talvez por condicionamento de entender a cultura como força central do que foi imposto pelas classes dominantes, o artigo de Mino Carta pinta uma paisagem aonde as condições da criatividade brasileira não inflamam mais os espíritos e nem sensibilizam mais os corações.

Com todo o respeito intelectual que Mino merece, faltou, para dar brilho ao seu artigo, o calor humano que ele cobra. Talvez assim ele pudesse ter uma visão mais ampla de todas as manifestações polivalentes do verdadeiro monumento que é a cultura brasileira.

Mesmo sendo um intelectual singular, Mino não se arriscou a indagar que São Paulo, por exemplo, vista pelos olhos de Gilberto Dimenstein (Folha), é a capital da economia criativa. Poderia perguntar não só a ele como ao próprio Ministério da Cultura, o que é isso. Pois até agora ninguém sabe, apesar dos inúmeros simpósios e conferências internacionais sobre o tema aqui no Brasil.

Mas o que a meu ver deveria ser uma obrigação é Mino escrever sobre o dinheiro público que banca, por exemplo, uma Bienal do Vazio que representa com fidelidade a sofreguidão que vive a cultura institucional no Brasil. Aquela bienal que sequer as baratas deram sinal de vida. Ali sim foi jogada poeira na inteligência nacional.

Dessa forma Mino Carta poderia escrever mais sobre a musculosa língua, quase um dialeto secreto com que a gestão corporativa de cultura (terceiro setor) tem nos brindado, até porque numa projeção minimamente aguçada, ele seria capaz de perceber que o campo plástico da cultura dos departamentos de marketing das leis de incentivo é fidelíssima à fidalga mídia nacional. Diria mais, que essa velha mídia está sendo transplantada e por encomenda, senão pelos próprios donos dela, pelos filhos genuínos dessa elite, sobretudo a paulistana para os espaços institucionais da cultura, públicos e privados.

Vai aqui a minha sugestão, para que outros artigos nutridos pelo mesmo tema avancem, dado o processo adiantado de uma ideologia baseada no cotidiano das classes dominantes com seus institutos, fundações e OSs ligados à grandes corporações. Sim, porque o que antes era quase imperceptível, no momento atual é gritante. E isso tem transformado profundamente a paisagem institucional da cultura brasileira aonde a simbologia e a ideologia da cultura de massa estão sendo substituídas por outra simbologia também fixa e vazia com pedagogia própria para expansão do ciclo das oligarquias brasileiras.

 

Carlos Henrique Machado Freitas é músico, compositor e pesquisador.

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