Conversas com meu pai
Ni!
Não converso sempre com meu pai, mas quando nos encontramos falamos sem parar. Já ouvi que depois de uma certa idade pais e filhos conversam apenas como uma forma afetiva pois já sabem o que dirão. Conosco não funciona bem assim. Parece que há uma necessidade de sincronizarmo-nos, como se nossa programação obrigasse a testar nosso modelo mental, nossas escolhas e nossa interpretação do mundo contra a experiência de ambos.
E você deve perguntar-se: mas o que isso tem a ver com 299+1?!
Bem, hoje encontrei-o perto de casa com a desculpa esfarrapada de levar-lhe sementes de abóbora, e acabamos conversando sobre minhas atividades voluntárias na promoção de uma cultura livre e colaborativa.
Indo e vindo, esbarramos num fato de importância curiosa em toda essa revolução digital, que além da comunicação e do armazenamento de informação, o registro do seu fluxo na rede, as pegadas digitais ou ausência delas, por si transformam.
O impacto da ausência de registro é claro e exaustivamente discutido. A possibilidade de anonimato que a rede oferece é base para parte significativa da liberdade de experimentação que desfrutamos e cujo benefício à sociedade é óbvio ululante. Menos óbvios, assim, são os efeitos da sua presença.
Meu pai ganha seu pão prolongando vidas terminais através do uso de instrumentos cortantes, sangue e corda. Durante sua carreira ele teve muitas boas idéias. Mas aconteceu que, por desde os idos da sua formação ele já ansiar pelo que hoje chamamos de uma sociedade de conhecimento, ao invés de apropriar-se de idéias para monetizá-las ele as compartilhava em redes sociais para construí-las colaborativamente – para usar termos modernos – como foi natural à humanidade em vários lugares e vários tempos.
Na sociedade de massa do século XX, contudo, fazer isso significou perder qualquer possibilidade de prestígio por muitas dessas idéias. Ou se compartilhava pelos meios oficiais como periódicos indexados, ou o mérito era certo de ser apropriado por quem o conseguisse fazer primeiro.
Portanto ao contrário do meu pai, a maioria das pessoas ocultava suas idéias e as negociava em círculos herméticos até que fossem cumpridos os protocolos formais de publicação médica. De tal forma que ao visitar alguns dos melhores hospitais do mundo, sempre constatava uma deficiência imensa na difusão de técnicas cirúrgicas vastamente superiores e já reconhecidas no Brasil, mas ignoradas mundo afora.
O mundo médico sempre teve recursos. Não faltavam meios para transmitir essa informação. Não faltava interesse em recebê-la, apesar de algum orgulho com relação a aprender de terceiro mundistas. Faltava apenas que se a quisesse difundir.
Assim, o uso de ferramentas digitais liberta as idéias não apenas por oferecer-lhes lugar e transporte, mas também, curiosamente, ao facilitar sua associação com o autor, invertendo alguns incentivos econômicos da apropriação.
Eu certamente poderia ter contado essa história falando do movimento software livre, ou da incrível colaboração matemática do recente projeto Polymath, ao invés de uma área conflituosa como a medicina, que ainda tomará seu tempo para absorver essas potencialidades. Mas hoje foi essa a conversa que tive com meu pai.
Pra lembrar? Que além das mudanças na comunicação e armazenamento de informações, a possibilidade de definir seu rastreamento também afeta a transição da economia industrial para a interconectada.
Bom, cansei de escrever, nos vemos em até 30 dias!
Ou… busquem algum rastro digital que andei deixando por aí
~~
ATUALIZAÇÃO (2009.04.20): Via Stoa do Gilson Schwartz encontrei um artigo no the Economist iniciando esta semana uma Special Report sobre inovações informacionais na Medicina. Que sincronia!


Eu conheço esse Ni!
Calma, não revelarei sua identidade
Depois volto para comentar o texto.
Um abraço,
OLÁ PAPAI TE AMO